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MOVIMENTO GREVISTA AGITA A CHINA

14/06/2010
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Demonstração de trabalhadores fora da fábrica da Honda em Zhongshan, China, na última sexta-feira.

Publicado em 10 de Junho de 2010.

De Ariana Lindquist, para o The New York Times

Tradução: Lucia Arieira

 ZHONGSHAN, China – Trabalhadores da fabrica de autopeças da Honda em greve estão pleiteando o direito de formar seu próprio sindicato, algo proibido oficialmente na China, e se manifestaram em protesto na sexta-feira de manhã.

Trabalhadores em greve do lado de fora de uma fábrica da Honda em Zhongshan, China na sexta-feira (11 de junho).

Enquanto isso, outras greves começaram a se espalhar em províncias chinesas antes preservadas do conflito com trabalhadores.

O objetivo principal dos cerca de 1.700 trabalhadores da Honda em greve é a quase duplicação dos salários. Nesta cidade do sudeste da China, está a terceira fábrica de autopeças da Honda que enfrenta paralisação de trabalho, nas últimas duas semanas.

Uma multidão pacífica de trabalhadores se reuniu fora dos portões da fábrica na manhã de sexta-feira e realizou um protesto. Depois se dissolveu entre um grande grupo de jovens trabalhadores que ocupava a estrada de duas pistas por mais de um quarteirão.

Eles se depararam com policiais vestidos de preto, com capacetes, máscaras e escudos. Mas os trabalhadores não mostraram sinais de intimidação. A polícia se retirou no meio da manhã, deixando os trabalhadores obstruindo a estrada do pequeno parque industrial próximo aos eucaliptos alinhados em um canal lamacento que passa em frente à fábrica.

Os trabalhadores dispersaram-se uma hora depois que a polícia se retirou, e permaneceram em greve.

A administração da fábrica ajudou a neutralizar a marcha através da distribuição de um panfleto que essencialmente oferecia 50 renminbi, ou cerca de US $ 7.30, para cada um dos oito dias em que a fábrica ficou fechada desde o final de maio, devido a uma paralisação nacional da Honda que se iniciou com a greve no setor de transmissão. Os trabalhadores disseram que os gerentes descontariam dos salários os dias em greve.

Apenas uns 50 grevistas compareceram do lado de fora da fábrica, depois do almoço nesta sexta-feira. Os gerentes distribuíram um novo panfleto convocando-os a retornar ao trabalho à tarde, dizendo que tudo estaria perdoado se eles voltassem.  

Mas o panfleto não continha nenhuma nova oferta de salário, e não havia nenhum sinal de que os trabalhadores voltariam para a fábrica. Um funcionário disse que o novo conselho de fábrica não estava entrando em qualquer negociação, pois poderia ser perigoso para os representantes se reunirem com a administração e as autoridades no mesmo lugar.  

O funcionário, um ativista sindical, disse que os grevistas estavam esperando por uma oferta genuinamente nova da administração antes de realizar novas conversações.

Esta última greve, que começou quarta-feira de manhã, tomou dimensões políticas.

Aqui os grevistas desenvolveram uma organização democrática sofisticada, efetivamente elegendo delegados sindicais para representá-los na negociação coletiva com a gerência. Eles também estão exigindo o direito de formar um sindicato independente da federação nacional dos sindicatos controlados pelo governo, que há muito tem por objetivo manter a paz no trabalho para os investidores estrangeiros.

“O sindicato não está representando nossa visão, queremos nosso próprio sindicato nos representando”, disse um grevista, que insistiu no anonimato por medo de retaliação por parte das autoridades do governo ou da empresa.

Geoffrey Crothall, o porta-voz do Boletim Trabalhista da China, um grupo de advogados trabalhistas com base em Hong Kong que atende sindicatos independentes e negociações coletivas na China continental, mostrou-se surpreso quando disseram como os trabalhadores da Honda em Zhongshan tinham se organizado. “Isso reflete um novo nível de organização e sofisticação” nas relações de trabalho chinesas, disse ele.

Um porta-voz da Honda não quis comentar sobre os detalhes da greve. O governo chinês tem sido relativamente brando em permitir a cobertura do conflito trabalhista porque a Honda é uma empresa japonesa, e algum sentimento anti-japonês ainda se estende na China, herança da Segunda Guerra Mundial.


Apesar da paciência incomum em permitir as várias greves até então, o Governo chinês não demonstrou qualquer interesse em tolerar sindicatos com total independência jurídica do sindicato nacional.

Dezenas de trabalhadores se reuniram em grupos, pouco antes do pôr do sol, na quinta-feira, em frente à fábrica de autopeças e criticaram abertamente as autoridades locais por estar do lado da empresa.

Os trabalhadores disseram que um grande número de policiais estava de prontidão na fábrica, na quarta e quinta-feira numa tentativa de intimidá-los. As duas outras fábricas de peças da Honda, fechadas devido a greves nas últimas semanas foram reabertas depois que foi prometido aumentos salariais de grandes dimensões aos trabalhadores.

O governo chinês não permite sindicatos com total independência jurídica do sindicato nacional, controlado pelo Estado. Mas o governo ocasionalmente usa de sutileza com a questão, deixando que os trabalhadores escolham seus representantes no sindicato nacional, ou permite a criação de “comitês de assistência ao empregado” paralelamente com as unidades locais oficiais, disse Mary E. Gallagher, especialista em trabalho na China da Universidade de Michigan.

Mas essas exceções tendem a ocorrer nas indústrias menos proeminentes, como na fabricação de calçados e roupas, e não nos bastiões da indústria pesada, como a automobilística.

 Os trabalhadores não especificaram sobre o que era necessário para conquistar seu próprio sindicato. Eles têm pouco mais de vinte anos, mais da metade são mulheres, e seu nível educacional é baixo. A Honda exige apenas o ensino médio, apesar de vários dizerem que tem nível secundário.

Os trabalhadores, totalizando quase 2.000, têm mantido reuniões para discutir quem poderia melhor representá-los.

Os trabalhadores querem ser remunerados na mesma quantia que os trabalhadores da primeira fábrica da Honda que entrou em greve recentemente, uma fábrica de transmissão de alta tecnologia em Foshan, onde a maioria dos trabalhadores é jovem, com alguns anos de treinamento em escolas de formação profissional, além do diploma de ensino médio.

Além da greve Honda, houve relatos na quinta-feira de novas greves em fábricas de propriedade japonesa e taiwanesa em pelo menos cinco outras cidades. Destas cidades, quatro estão fora do parque industrial pesado da província de Guangdong, onde todas as três greves nas autopeças da Honda foram realizadas.

Mas as greves envolvendo outras entidades patronais aparentemente terminaram rápido. Diante de uma aguda escassez de trabalho a gerência procurou responder às exigências dos trabalhadores. A Honda terminou com a greve em duas outras fábricas também.

As empresas de propriedade chinesa tendem a não divulgar quando as greves ocorrem, e não se sabe quantas greves ao todo ocorreram nos últimos dias.

A greve aqui paralisou o trabalho em uma fábrica de dois andares que produz espelhos laterais e traseiros, fechaduras e uma série de outras autopeças para as montadoras Honda no mundo inteiro. Os trabalhadores daqui disseram que os funcionários de cada departamento da fábrica fizeram uma reunião, discutiram quem seria o seu representante mais capacitado e selecionaram esta pessoa para representá-los em um conselho de cerca de 20 trabalhadores de todas as fábricas que manteve negociações com a administração.

De acordo com os trabalhadores, funcionários municipais e representantes do sindicato autorizados pelo governo também participaram de reuniões do conselho de trabalhadores com a gerência.

Em um panfleto que os trabalhadores disseram ter sido distribuído pela administração na quinta-feira de manhã, a direção da fábrica afirma estar além da sua autoridade o reconhecimento de um sindicato. A administração pediu que os trabalhadores apresentassem uma requisição por um sindicato independente a um conselho governamental de trabalho até 19 de junho, e pediu o regresso dos trabalhadores aos seus postos de trabalho enquanto isso.

Os trabalhadores manifestaram ceticismo sobre se a empresa cumpriria as suas exigências, principalmente num aumento de 89% por cento em seus salários. Atualmente está em 900 renminbi por mês, ou US $ 132, para uma semana de 42 horas. Um aumento de 89% equivale a 800 renminbi a mais por mês, ou um aumento de cerca de US $ 117. Muitos trabalhadores na província de Guangdong já ganham muito mais que um salário mínimo em virtude de uma escassez de trabalho aguda, mesmo antes das greves começarem.

O salário mínimo varia de cidade para cidade e muda freqüentemente. Atualmente está em 900 renminbi em Zhongshan, de acordo com os trabalhadores. Os trabalhadores disseram também que tinham lido notícias na internet que a Honda já havia concedido aumentos de 500 renminbi por mês, ou US $73, na resolução de outras greves. A Honda não confirmou os aumentos, indicando apenas que eram muito altos em termos percentuais.

Trabalhadores da fábrica daqui disseram que seus trabalhos os obrigavam a ficar durante oito horas por dia em seus postos, e que as mulheres grávidas foram autorizadas a sentar apenas nos seus últimos três meses. Os trabalhadores também reclamaram que não estavam autorizados a conversar no trabalho, uma exigência comum em fábricas chinesas, e que tinham de obter passes para ir ao banheiro. Disseram que os gerentes reclamavam caso achassem que tinham demorado muito tempo bebendo água.

Um funcionário municipal que estava junto a um grupo de guardas de segurança privada fora da fábrica disse que não havia nenhuma evidência de que a Honda tinha infringido o direito do trabalho. Os trabalhadores “só querem mais dinheiro, eles estão motivados pelas greves de outras Honda”, disse o funcionário, que insistiu no anonimato.

A greve começou na manhã de quarta-feira depois que uma funcionária apareceu com seu crachá anexado indevidamente na sua camisa e teve sua entrada negada por um segurança. A funcionária reclamou com o guarda, que respondeu empurrando-a para o chão, contaram os trabalhadores.

Os trabalhadores disseram que a administração da fábrica tinha oferecido um aumento de 100 renminbi por mês no abono de alimentação e habitação dos trabalhadores. O subsídio está atualmente em 300 renminbi por mês, ou US $44.

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