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Vitória de greves na China

10/07/2010
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Das páginas de WORKERS WORLD (Mundo Operário), editamos extratos de um texto de Por Deirdre Griswold no qual é feita a análise da onda de greves na China. Ver na íntegra em www.workers.org

Por Dirdre Griswold

             Os trabalhadores e trabalhadoras com consciência de classe, as e os marxistas de todo o mundo têm observado o rápido crescimento econômico da China Popular nas últimas duas décadas com admiração, mas também com ansiedade.

            Considere-se a China um país capitalista ou ainda fundamentalmente socialista, ninguém pode negar o assombroso progresso material feito por este país, lar da quinta parte da população mundial. Tampouco se pode negar que grande parte do crescimento industrial da China chegou concomitante ao investimento de corporações imperialistas que recorrem o mundo em sua busca por trabalhadoras e trabalhadores educados, mas com baixos salários.

            Recentemente, uma intensa exploração das e dos trabalhadores na China por parte destas corporações parece ter provocado uma série de suicídios entre as e os empregados da Foxconn, o fabricante de iPhone com sede em Taiwan, despertando a indignação pública e um debate sobre os salários e as condições de trabalho.

            A pergunta para o movimento foi: permanecerão passivos as e os trabalhadores chineses ante a pressão dos patrões capitalistas de reduzir-lhes a escravos assalariados ou se organizarão e, militantemente, exigirão seus direitos em um país que inscreveu em sua Constituição um papel central tanto para a classe operária como para o objetivo de alcançar o socialismo? Desde maio, um setor muito importante da classe trabalhadora da China – em sua maioria jovens imigrantes das províncias do interior que viajaram às dezenas de milhões ao litoral em busca de trabalho tanto em obras de construção do Estado como em plantas de propriedade dos capitalistas – tem dado a resposta.

 Trabalhadores/as da Honda desencadeiam onda de greves

             O que se converteu em uma onda de greves, com enormes implicações para a luta de classes em todas as partes, desencadeou-se quando as e os trabalhadores em uma planta de peças da Honda pararam seus trabalhos em 17 de maio. (ver nota no boletim anterior da Secretaria de Relações Internacionais do PSOL)

            Eventualmente, quase toda a planta – 1900 trabalhadores – desligou suas máquinas e se uniu à greve. A falta de peças para as transmissões automáticas provenientes dessa planta em Foshan, província de Guangdong, e as greves que logo se seguiram nas plantas de outras peças obrigaram a Honda a fechar quatro plantas de montagem.

            A greve de Foshan chegou a um acordo em princípios de junho quando, a Honda concordou em subir os salários de todas e todos os trabalhadores empregados em mais de 30%, assim como dar às e aos trabalhadores bônus regulares em dinheiro baseados na assistência.

            Contudo, nem bem começou essa greve, quando as e os trabalhadores em outras empresas – a maioria propriedade, ao menos em parte, de empresas japonesas – também pararam. Além das greves em várias fábricas da Honda, as e os trabalhadores da Nissan e Toyota também saíram em busca de maiores salários.

            As greves também foram reportadas “em uma fornecedora de material esportivo [propriedade] de fundos taiwaneses na província de Jiangxi e na fabricante japonesa de máquinas de costura Brother Industries em Xi’an, capital da província de Shaanxi” (People’s Daily Online, 23 de junho).

            Apenas dois dias depois do acordo na Honda, entre 300 e 500 trabalhadores/as da fábrica Merry Electronics – um fabricante taiwanês de componentes de áudio também em Gungdong – começaram uma greve e bloquearam estradas durante a maior parte do dia. A companhia respondeu imediatamente com o anúncio de um aumento salarial de 22% enquanto negava que o aumento tinha alguma relação com a greve (Grupo de Estudo da China, “Wildcat Strikes in China”).

De greves a ocupações

             Em uma planta de fechaduras da Honda, localizada também na província sul-oriental chinesa de Guangdong, as e os trabalhadores foram ainda mais além, fazendo de uma greve a uma ocupação. Saíram em 9 de junho, mas logo foram ameaçados de demissão pelos gerentes da Honda e substituição por trabalhadores/as contratistas.

            Cinco dias mais tarde, muitos/as do/as 1400 trabalhadores/as “entraram em fila na fábrica com seus impecáveis uniformes brancos, dando a aparência de que a greve que começara na quarta-feira anterior havia terminado. Entretanto, as e os trabalhadores disseram que se apresentaram somente porque temiam ser demitidos depois que a companhia publicara avisos dizendo que estava buscando trabalhadores para substituição – a um salário muito mais alto. Uma vez dentro, começaram a pressionar por suas demandas de um aumento do salário básico de 900 yuans a 1600 yuans por mês” (Wall Street Journal, 13 de junho).

            Estas ações militantes parecem refletir dois aspectos importantes: primeiro, que há uma escassez de mão-de-obra na China, dando às e aos trabalhadores uma maior influência sobre seus patrões e, segundo, que o governo estimulou os trabalhadores em suas reivindicações salariais. (…)

            Poucos dias depois do acordo da Honda, o governo chinês anunciou que em quatro províncias da costa onde se concentra a indústria de propriedade estrangeira – Jiangsu, Zhejiang, Guangdong e Xangai – o salário mínimo aumentou de 10% a 20% (People’s Daily Online, 8 de junho). Com isso, subiu a 14 o número de províncias que aumentaram o salário mínimo desde janeiro deste ano.

            O primeiro-ministro chinês Wen Jiabao reforçou publicamente a necessidade de um melhor trato com as e os trabalhadores migrantes. Reconheceu que a nova geração que emigra de seus povoados para trabalhar nas fábricas não se sentiria satisfeita com as duras condições que enfrentaram seus pais.

            Os meios de comunicação nos EUA, que têm medo de revelar muito abertamente seu preconceito contra as e os trabalhadores, pareceram adotar um tom neutro com relação a essas greves. Aqueles que se dirigiam aos investidores e executivos, entretanto, não podiam ocultar sua consternação tanto pela militância das e dos trabalhadores como pelo papel do governo chinês.

            “Os executivos dizem que a atitude relativamente tolerante do governo central chinês frente às greves, desde que começou a surgir uma série de disputas no mês passado, pode ser um fator fomentando as e os trabalhadores para que exerçam pressão em favor de suas questões. Nas recentes controvérsias de trabalho no sul da China, as autoridades em geral se abstiveram de enviar a polícia para romper as greves, uma tática corriqueiramente utilizada quando as disputas tomam um perfil alto” (WSJ, “Toyota’s China Assembly Lines Vulnerable to Labor Unrest”, 18 de junho).

            Tal atitude “tolerante” do governo alarmou os imperialistas. E não se iniciou com essas greves nas empresas de propriedade estrangeira.

            Em junho passado, quando funcionários da empresa estatal do Grupo Ferro e Aço Tonghua na província de Jilin convocaram uma reunião massiva para anunciar a milhares de trabalhadores/as que a planta seria privatizada e a maioria perderia seus postos de trabalho, armou-se uma grande confusão. As e os trabalhadores agarraram um gerente do grupo que se encarregaria da planta e o golpearam mortalmente. A resposta do governo não foi cair sobre as e os trabalhadores, senão cancelar a privatização (WSJ, 27 de julho) (…)

Ameaças de ir a outros lugares

             Que estão dizendo os executivos das corporações estrangeiras ao governo chinês sobre as recentes greves? Não estão ameaçando retirar seus investimentos se as e os trabalhadores seguem pressionando e o governo não os reprime? Não estão dizendo: “Podemos ir a Índia ou Indonésia, sabem!”?

            De fato, isso é precisamente o que estão dizendo através da imprensa. O Wall Street Journal, que fala sem nenhuma desculpa em nome do capital financeiro estadunidense, citou um executivo da companhia japonesa Investigações Avançadas: “O senhor Endo estima que a remuneração anual para cada trabalhador/a na China poderia custar tanto como 400 mil a 500 mil yenes dados os recentes incrementos no salário. ‘Isto seria quase o dobro do salário médio pago a um/a trabalhador/a de uma fábrica da Índia ou 33% mais alto do que se paga a um trabalhador na Tailândia’, disse ele.”

            “A enxaqueca trabalhista que tem a Honda na China chega no momento em que a empresa está lutando para manter o nível da crescente demanda no país, que se converteu no maior mercado mundial de automóveis no ano passado.” (“Honda’s Long-Haul Dilemma in China”, 24 de junho) (…)

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