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Aprovação do Casamento Homossexual na Argentina: uma vitória democrática

06/08/2010

Por Pedro Fuentes

             As agências de notícias brasileiras informavam dia 16/7 que “em uma votação histórica, os senadores argentinos aprovaram a lei do casamento homossexual, o que torna o país o primeiro Estado da América Latina a permitir o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Esta lei, cujo alcance será geral, altera no código civil a fórmula “marido e mulher” pelo termo “contratantes”.

             A Argentina é o primeiro país da América Latina a autorizar o casamento homossexual. Trata-se de uma importante vitória democrática do povo argentino, que derrubou uma barreira preconceituosa contra um setor oprimido da sociedade, contra a qual o movimento de libertação homossexual argentino e a esquerda vêm lutando há décadas.

             No dia 15/7 à noite a mobilização no Senado dos simpatizantes pelo voto do casamento gay tinha esmagadora maioria em relação aos setores retrógrados, mobilizados pela cúpula da Igreja portenha e de todo arcebispado.

             A maior parte da imprensa brasileira (da Rede Globo à Folha de São Paulo) estranhou. Pareceu-lhes contraditório que a Câmara de Senadores argentina, de trajetória reconhecidamente reacionária e da qual se esperava o veto à Lei, ter optado pelo voto contrário à Igreja, num país 75% católico.

                       O conservadorismo do Senado é uma constante na história argentina. O que levou a maioria dos senadores e deputados votarem a favor foi a opinião majoritária da população argentina em defesa do casamento homossexual, constatada na pesquisas. Os políticos às vezes sabem votar para não perder votos.    

             Curiosamente, o que favoreceu o crescimento da opinião pró casamento gay no povo argentino foram as declarações extremistas do importante bispo da Argentina, o cardeal Bertoglio. Ele já havia entrado em confronto com o casal Kirchner em outras oportunidades. Por exemplo, quando o governo tomou a medida relativamente progressista com a lei de imprensa para controlar os conglomerados midiáticos. Na última semana antes da votação no Senado, o bispo utilizou uma expressão futebolística argentina – “con los tapones de punta” – mobilizando o repertório mais reacionário da Igreja contra os homossexuais, e convocando mobilização para pedir aos senadores que não cometam o sacrilégio de votar contra “leis sagradas ou divinas”. Desta maneira, quanto mais a Igreja militou contra, mais o povo se colocou a favor.           

            Esse movimento inversamente proporcional entre as declarações da Igreja e as demonstrações do povo, que pareceu contraditório para a imprensa brasileira, se explica por alguns fatos. Primeiro, porque existe na Argentina uma longa tradição laica, gestada pela influência que tiveram os anarquistas e socialistas na sociedade. Segundo, a cabeça dos argentinos é menos permeável às campanhas midiáticas ou às posições dos poderes instituídos, como às defendidas pela Igreja.

             Terceiro, há um profundo desprestigio popular à cúpula eclesiástica da Argentina, já que esta cúpula encabeçou as causas mais anti-populares, sempre ao lado da direita, ou inclusive à direita da direita. A Igreja foi o setor mais militante das ditaduras, através de suas capelas e conventos. Em 1955, a ajuda da Igreja foi cara à burguesia e aos militares no golpe contra o governo nacionalista de Perón. No dia de Corpus Christi de 1955, a Igreja fez uma grande demonstração política contra o governo. Em 16 de junho ocorreu a primeira tentativa de golpe: a aviação bombardeou a Casa do Governo e a Praça de Maio. Uma multidão saiu espontaneamente para defender Perón contra as balas e as bombas. Não por casualidade alguns dias depois, o peronismo – com seus métodos caudilhistas, porém apoiado em uma militância genuína anti-golpista – saiu em mobilizações noturnas a queimar igrejas, entre elas várias catedrais, fato que obviamente foi apagado da “historia oficial”.

             Mais próximas aos nossos dias (e mais conhecidas) são as posições da Igreja em apoio à sangrenta ditadura de Videla. Apoiou política e oficialmente, e também em seus cerimoniais, ou seja, religiosamente. Seus sacerdotes estiveram vinculados a operações militares e benzeram assassinos antes dos seqüestros. Eu mesmo fui delatado pelo padre da Igreja do bairro, um pouco antes do golpe, e tive a sorte de poder escapar antes que a polícia chegasse para revistar a casa e saquear arquivos, livros e passaporte.

             Outro fato notável foi a postura da Igreja na guerra das Malvinas. A guerra foi o recurso do governo militar para reforçar o regime que estava fragilizado e injetar nacionalismo na conjuntura política. Já havia então ocorrido uma greve geral, organizada por setores independentes e à esquerda da burocracia sindical, e outras demonstrações estavam sendo planejadas para desestabilizar o regime. Apesar da direção militar, a guerra foi justa. Na disputa entre Inglaterra colonialista e Argentina militar, a esquerda em geral tomou o lado na Argentina. Nesta ocasião, a Igreja organizou a vinda do papa Paulo VI, chamando o povo a “manifestar-se pela paz” enquanto os “marines” ingleses afundavam, em águas neutras, um barco de guerra argentino, para frear a autêntica mobilização antiimperialista. 

            A cúpula eclesiástica que controla o conjunto da Igreja atua historicamente na vanguarda das causas da direita e contra o povo. Por isso, não há nada curioso na relação inversa da cúpula da Igreja com a opinião pública argentina.

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