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Sobre os acontecimentos no Equador: a imprensa e a tentativa de golpe

12/10/2010
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 Por Jorge Estrella, membro do Ministério de Coordenação Política do Equador (por email).

 

Lhe conto que durante todo o ano a imprensa atacou de maneira permanente ao governo. Entre os mais virulentos se encontram os jornalistas dos veículos que, como estabelece a Nova Constituição, tem até fim de outubro deste ano para serem vendidos, caso seus proprietários executem atividades diferentes como inversões financeiras e bancárias, etc. Você que conhece o Equador sabe que Fidel Egas é proprietário do Banco de Pichincha, Dinners, casas financeiras, emprestadoras e todo o imaginável. Mas, além disso é dono da segunda emissora de TV mais importante do país, a TeleAmazonas. Egas foi obrigado a vender o canal e os meios de comunicação em sua propriedade. Outro dos virulentos contra o governo é Emilio Palacio, que defende aos proprietários do Universo, e também terá que escolher entre atividade financeira ou meios de comunicação.

Foram eliminadas todas estas relações precárias de trabalho: terceirização, flexibilização laboral, trabalho estafante por muitas horas. Obrigamos a contratação de todos os trabalhadores terceirizados do país. Agora estamos lutando para que as empregadas domésticas estejam asseguradas em seus empregos, e com mesmo padrão salarial que outros trabalhadores mais valorizados.

Existe um setor de esquerda (ou relacionado com a velha esquerda) que está no governo e está em franca disputa com os setores ligados a uma “direita moderna” ou o que poderíamos chamar de uma burguesia elitista marginal. Avançam as conquistas sociais, e também o fortalecimento de um novo regime, que permita aplicar o chamado Plano Nacional de Desenvolvimento. Esse Plano pretende organizar a exploração dos recursos naturais em benefício do ser humano. Ou seja, o desenvolvimento das forças produtivas a partir da articulação harmoniosa de três elementos: ser humano-técnica-natureza.

Esse Plano recupera o controle e regulamentação sobre os atores econômicos, assim como a planificação a médio prazo. Neste caminho, são muitos os interesses afetados pela nova estrutura jurídica, e é essa a razão deste golpe de ensaio, que maneja os mesmos elementos táticos e estratégicos de golpes anteriores. Quer dizer, o levante de um setor da sociedade, que gere uma mobilização nacional contra o governo e o plano de mudança institucional do Estado. Com Gutiérrez está Egas, figura que financiou sua queda e utilizou os mesmos elementos.

O Universo [jornal], agora popularmente conhecido como o ‘Perverso’, publicou uma fotografia que desmonta, por meio de uma lógica elementar, o argumento da burguesia nacional, que diz tratar-se somente de uma insubordinação policial por salários.

A fotografia que assinala o descontentamento da tropa, nos mostra que os cartazes e faixas com que fecharão o aeroporto Mariscal Sucre de Quito às 8 da manhã, foram feitos pelo menos 48 horas antes da revolta. Se alguém quer que sua situação salarial se ajeite, o elementar é que se reúnam aqueles que podem negociar e resolver o problema. E justamente a escolta legislativa que impediu violentamente que se reunisse a Assembléia Nacional que trataria da dita lei Orgânica para o funcionalismo público.

Dizem que o presidente nunca esteve detido. Sem embargo, ninguém podia ingressar ao hospital sem o conhecimento dos rebeldes. Pior, se não se encontrava detido o presidente, que faziam os franco-atiradores nas varandas dos edifícios vizinhos, que foram os únicos diretos responsáveis por mortos e feridos durante a saída de Correa do hospital?

O golpe não funcionou por 3 elementos que o desativaram:

1. A potente mobilização nacional que não só foi resgatar o presidente no Hospital em que estava detido, como marchou pelas ruas de todo país repudiando o golpe e convocando a defesa da democracia. Me coube regressar esse dia a Guayanquil por terra, e nos rincões do país havia ou mobilização, ou atividades normais.

2. Foi declarado estado de exceção e se controlou o fluxo de informação em nível nacional. Com isso, os golpistas foram privados de uma ferramenta importante que poderia gerar desconcerto da população.

3. Um terceiro elemento foi a mobilização internacional em defesa da democracia no Equador. Os companheiros da Venezuela me enviaram imagens de mobilizações em Caracas e outras cidades. Houve mobilizações na Europa, em frente às embaixadas do Equador e em outros países da América Latina, como contaram camaradas do Reagrupamento Internacional.

Ou seja, os golpistas foram cercados por todos os lados. Isso foi mais ou menos o que ocorreu nesta quinta feira, que como toda coisa ruim traz também em seu interior dinâmicas interessantes. Creio que agora é possível que o Movimiento País seja construído como ferramenta política por dentro das mobilizações e que seja um oxigenador de suas forças, que se nutra dos cidadãos e se sustente por isso.

Abraços aos companheiros,

Jorge Estrella

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