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A Batalha de Londres

21/11/2010

Por Israel Dutra, PSOL/RS

Stop Education Cuts! 10 de novembro de 2010 em Londres.

A pontualidade é uma instituição tão importante quanto a Coroa para os britânicos. O “Chá das cinco” é parte dos ritos que tornaram a Inglaterra conhecida no mundo como sisuda e rigorosa.  Apenas numa sociedade em vésperas de profundas transformações podemos encontrar questionamentos às tradições mais arraigadas.

As manifestações do movimento estudantil universitário, que vem agitando o outono inglês podem não atrasar o “chá das cinco”, ainda. Mas, certamente, os ingleses começam a olhar no relógio com mais preocupação.

A mobilização dos estudantes é um marco decisivo. Ela reforça uma tendência já assinalada: a Europa assiste a maior vaga de manifestações desde o Maio de 1968. E mais, a entrada em ação do movimento de massas na França e na Inglaterra configura uma segunda etapa na luta para que os trabalhadores não paguem a crise que perdura desde 2008; os estudantes de Londres parecem atender o chamado de seus companheiros gregos, que estenderam na Acrópole Grega uma faixa enorme com os dizeres “povos da Europa, levantem-se”.

Chegou a vez da Inglaterra

A quarta-feira 10 de novembro entrou para a história do Reino Unido. A marcha de 50.000 estudantes sobre o centro de Londres representa uma nova etapa na luta social. Foi a maior manifestação em décadas.

Motivada por drásticos cortes na educação foi a expressão social de repúdio ao plano de ajuste anunciado pelo premie David Cameron. A proposta do governo é reduzir as bolsas de estudo e triplicar as taxas das universidades públicas de cerca de 3000 libras ao para 9000 libras (aproximadamente 10500 Euros). A palavra de ordem que se escutava era “Nenhum porém, nenhuma redução no orçamento da educação”.

A mobilização surpreendeu até mesmo os organizadores. A marcha que culminou numa ocupação da sede do Partido Conservador (os “Tories”) foi convocada pelo NUS – União Nacional de Estudantes.

A “austeridade” propalada pelo governo é o resultado da entrada da Grã-Bretanha na crise européia.Conforme o Jornal Público, o ministro de finanças, Osborne, “ precisa, num período de cinco anos, conseguir 113 mil milhões de libras, ou seja, 130 mil milhões de euros. Um quarto deste valor deve ser conseguido através de novos impostos, em particular através do aumento IVA desde Janeiro. E o resto, ou seja, 83 bilhões de libras (95 bilhões de euros), será conseguido através de medidas de austeridade orçamental.Cada ministério irá ver o seu orçamento reduzido de 25% até 2015, e em alguns casos até 40%. No mesmo período, 600 mil empregos devem ser suprimidos no setor público.”

Essa intensa movimentação acontece meio ao pânico nas bolsas de todo o mundo com a possibilidade de uma quebradeira na Irlanda.

A primeira crise do governo Con/Dem

A resposta do governo a manifestação que comoveu o país foi dúbia. Por um lado, setores da imprensa ecoaram a crítica de que a ocupação foi excessiva, manipulada por grupos radicais; de outra parte, os holofotes ficaram nas posições de Nick Clegg, líder do Partido Liberal-Democrata. A pressão sobre os deputados dos Liberais Democratas para se posicionarem contra o aumento das taxas vem aumentado, oriunda de vários setores sociais. Essa é a primeira crise grave da coalizão de governo entre os Conservadores e os Liberais Democratas.

E agora, Clegg?

A aliança forjada após as eleições no começo deste ano foi construída com base no desgaste do período de governo dos Trabalhistas, repudiados nas urnas. O Partido Liberal Democrata, na esteira deste desgaste ganhou peso como um ator na cena política inglesa.  Com um programa híbrido, ainda não está claro qual o nível de pressão que os parlamentares orientados por Clegg vão suportar. Os ajustes previstos pelo governo são duríssimos. Vários setores populares já começam a tomar iniciativas contra os planos de ajuste como os bombeiros e trabalhadores no transporte ferroviário.
Clegg lançou uma nota através de seu site, na qual se justificava para seu eleitorado:

“O Governo de coligação é claro: faremos de tudo para dar voz aos seus votos. Não há solução com varinha mágica, mas, igualmente, não há desculpa para a inércia”.

Este ambiente de incertezas políticas e instabilidade econômica é fértil para novos ânimos na luta social. Os estudantes londrinos romperam a apatia. A marcha massiva, reunindo 50 mil estudantes – para ampla maioria era o primeiro grande movimento em que se envolviam – abre novos caminhos. A lembrança das manifestações anti-guerra registrada nos anos de 2003 a 2005 voltou às ruas. Uma nova geração desperta para a luta.

Começou a segunda etapa da nova vaga européia

O outono foi marcado por manifestações multitudinárias dos países mais avançados da Europa: França e Inglaterra. Poderíamos definir como o começo de uma segunda etapa na nova onda de mobilizações que o velho continente vive desde quando os impactos da crise se fizeram sentir.

A primeira etapa foi marcada por um brutal ataque aos trabalhadores, com demissões em massa, arrocho salarial e cortes orçamentários. As conseqüências econômicas iniciais foram sentidas nos PIGS (Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha), que são o “elo mais débil” da Europa. Do ponto de vista de uma ação independente de massas, tivemos importantes expressões na Islândia (com panelaços que chegaram a derrubar o governo e um plebiscito em prol do não pagamento de suas dívidas), Europa do Leste e Grécia. Nos outros países tivemos algumas manifestações, inclusive com greves gerais e concentrações massivas, como no caso de Itália e Portugal, respectivamente. A resposta global da classe trabalhadora ainda foi insuficiente, neste momento.

 Contudo, entendemos o atual momento como um salto de qualidade por conta da combinação de dois aspectos: mais crise política e luta social em países com Espanha, Itália, Grécia, Portugal e agora a Irlanda; e a entrada em cena dos estudantes e trabalhadores franceses e ingleses por conta dos recortes orçamentários e contra-reformas econômicas.

Se a primeira década do século XXI teve como epicentro das lutas sociais a América Latina e o Oriente Médio, parece que a Europa toma a dianteira no começo da segunda década.  Este ano aconteceram greves gerais importantes como na Espanha. Boa parte dos governos está com sua popularidade em queda. Muitos escândalos de corrupção envolvendo diretamente personalidades políticas, como os inúmeros casos com Berlusconi na Itália e o caso “L’Oreal” na França. As eleições regionais na Grécia tiveram ampla abstenção, estagnação dos partidos tradicionais e crescimento no voto à esquerda.

Em Londres se joga o futuro

O 10 de novembro não encerra a luta, apenas a inicia. Os estudantes não vão sair das ruas tão cedo. Se o governo conservador quiser ter uma política de “choque” contra os movimentos sociais, recordando a Era Tatcher tem vários complicadores para fazê-lo. Os liberais-democratas se elegeram com um discurso de oposição ao modelo trabalhista de Brown/Blair, mas se comprometeram a evitar mudanças drásticas como corte de empregos e a cobrança de taxas nas universidades. Os policiais que receberam aumentos durante a “jornada contra os sindicatos” na década de 80, estão com trabalhos mais precarizados, tendo feito há alguns anos, importantes greves e marchas reivindicativas. Ou seja, para nada está garantido o êxito do “plano Cameron”.

E quanto mais forte for a resposta da classe trabalhadora e da juventude na Europa, mais ânimo e disposição de luta serão vistos nas ruas dos centros urbanos ingleses. A burocracia sindical do TUC (Trade-Unionistas, a central sindical) tem se comportado de forma frouxa, mas já existem sindicatos combativos, nucleados ao redor do sindicato RMT que vem se manifestando publicamente contra os ajustes e exigindo um plano de lutas mais claro das direções operárias.

Acompanhar de perto a movimentação da Inglaterra, pós-10 de novembro é fundamental. Seguir também, a situação política e econômica de sua vizinha Irlanda.

O governo inglês prepara ainda uma reforma da previdência.

O lugar da esquerda

Para a esquerda, no mundo do todo, temos que fazer deste alento, solidariedade ativa. Os internacionalistas devem divulgar ao máximo, por todas as vias, as posições anti-capitalistas. Os desafios políticos são enormes. Uma articulação que deve levar em conta:

  1. A mais ampla unidade na luta entre os “três motores” da nova onda de lutas: a classe trabalhadora industrial, de serviços, com atenção especial para os precarizados; o movimento estudantil, nas universidades e nos liceus; e o conjunto dos imigrantes;
  2. Uma agenda capaz de apresentar uma plataforma de resistência aos cortes, privilegiando a defesa do emprego e do salário, do direito à aposentadoria e do serviço público gratuito e de qualidade com a saúde e a educação.
  3.  A proposição de frentes entre diferentes setores como forma de apresentar uma alternativa política aos liberais, aos socialistas e as conservadores, com um claro programa anti-recortes e de castigo aos bancos.
  4. O desenvolvimento de experiências anti-capitalistas no seio de movimentos maiores e mais expressivos da classe.

 

Londres, Lisboa, Paris, Atenas e Dublin: novos capítulos virão.

Estamos às vésperas de grandes acontecimentos. Quem sabe não podemos pensar em uma grande greve geral européia para 2011? A luta recém começou.

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