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Chile: A perda do medo, a unidade dos trabalhadores e a renacionalização do cobre

06/12/2010
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Por Andrés Figueroa Cornejo (especial para ARGENPRESS.info)

Entrevista com Cristian Arancibia, presidente da Confederação Mineira do Chile e dirigente do sindicato de Collahuasi, em greve desde 5 de novembro. 

Mina Collahuasi

Cristian Arancibia (36 anos) é o presidente da Confederação Mineira do Chile, que agrupa 23 sindicatos das indústrias privadas de cobre no país, ou seja, 85% dos sindicatos do setor. Também é o terceiro diretor do Sindicato dos Trabalhadores da Mineração Collahuasi. Arancibia entrou no sindicato em janeiro de 2006 para “enfrentar o desafio de levar os trabalhadores da minha empresa, em suas justas reivindicações e mudar a forma de conduta, sob o ponto de vista da independência e autonomia sindical dos trabalhadores”.

A mina Collahuasi é a terceira exploração privada do metal vermelho no Chile, com 10% da produção, “mas em mais alguns anos chegará a patamares parecidos e inclusive ainda mais altos do que os da mina Escondida”.  

Collahuasi tem uma participação de 3,3% da produção de cobre do mundo, e seus proprietários estão distribuídos entre os 44% da Anglo American, 44% de Xstrata e 12% de Mitsui.

Desde o dia 5 de novembro, depois de negociações infrutíferas, os trabalhadores decidiram parar o trabalho e fazer greve.

Andrés Figueroa Cornejo (AFC) – Quais são as principais reivindicações dos trabalhadores e qual foi a resposta dos empregadores?
Cristian Arancibia (CA) – “O nosso atual projeto de acordo coletivo não é muito diferente dos acordos de negociações coletivas anteriores. A diferença é que hoje podemos ir atrás da conquista de pontos que, historicamente, a administração da empresa havia negado aos trabalhadores, mas devido ao crescimento exponencial da empresa, de acordo com a informação emitida por ela mesma, agora ela está em condição de resolver e não só dedicar-se a negociar os aspectos que a empresa está interessada.”
AFC – A FMC (Confederação Mineira do Chile) fez parte do conflito em Collahuasi, o que foi duramente criticado pela direção da empresa. Como você explica o apoio ativo da Confederação na greve?

CA – “A Confederação irá intervir sempre que necessário, não só no conflito em Collahuasi, mas em qualquer outro envolvendo membros da organização. E mesmo nos grupos que não pertencem a ela. Aí também, em algum momento, teremos que sentir a mão dos 10.500 trabalhadores do setor privado, porque o que está acontecendo aos trabalhadores de Collahuasi poderia acontecer aos demais.”

 
AFC – O que está em jogo na greve de Collahuasi?

CA – “Por um lado, melhores salários para os 1.551 membros do nosso sindicato, e por outro, de uma vez por todas unir muito mais a organização, para evitar abusos contra os trabalhadores.”

AFC – Qual tem sido a repercussão da greve nos meios de comunicação nacional e regional?

CA – “Nos meios de comunicação locais não temos visto imparcialidade na informação, já que se dedicam apenas a descontextualizar entrevistas realizadas com dirigentes de Collahuasi”.
AFC – Qual é o estado psicológico dos trabalhadores em greve? 

CA – “Temos mais de duas semanas de greve legal e o apoio dos trabalhadores nas assembléias tem sido exemplar para continuar e, assim, atingir os objetivos propostos.”
AFC – Para muitos trabalhadores chilenos o salário dos mineiros de cobre é alto. Muitos anos atrás, o setor era chamado de “a aristocracia operária”. O que você acha disso?

CA – “Os lucros dessas empresas em 2009 atingiu mais de 30 bilhões de dólares, uma cifra superior ao orçamento da nação que chegou a um montante de 28 bilhões de dólares. Que país do mundo, seja de qualquer tendência, desejaria que os empresários tivessem lucros superiores às receitas do Estado em relação à tributação? Nesse mesmo contexto, os trabalhadores deste setor estão apenas solicitando uma parte desses lucros que, no caso de Collahuasi, não ultrapassa os 6%. O que está por trás dessa demanda operária, que pode ser muito onerosa para alguns, é a baixa arrecadação em relação aos salários da maioria dos trabalhadores chilenos. No entanto, os mineiros não tolerarão níveis mais baixos de remuneração. Ou então, as empresas deveriam fazer o mesmo e acho que estamos longe desse caso.”
AFC – Por que vocês decidiram ocupar a Escola Santa Maria de Iquique e o que os trabalhadores em greve estão fazendo lá?  

CA – “Na cidade de Iquique, onde a jazida está localizada, a Escola Santa Maria é um símbolo para todo trabalhador e especialmente para os mineiros. Dali que nasceu a idéia de ocupá-la para poder abrigar os 1.551 trabalhadores que se encontram em greve legal. A verdade é que não estava em boas condições e desde o primeiro minuto da ocupação começou uma limpeza total, retirando mais de cinco caminhões de entulho, e através de especialistas em eletricidade se corrigiram todos os circuitos, foram realizadas revisões estruturais, foram feitos banheiros e chuveiros, e, para finalizar, pintou-se a escola. Na verdade, ela ficou muito bem reformada”.
A unidade essencial

 

AFC – Qual a relação que existe entre os trabalhadores de cobre subcontratados e os de Codelco? Existe a possibilidade de uma unidade e para quê?

CA – “O projeto estratégico de nosso diretório, como plataforma fundamental, é unir todos os trabalhadores do setor de mineração, seja da mineração Estatal, mineração privada, contratados e subcontratados, onde a recepção tenha sido boa, já que eles e todos em geralmente compreendemos que a única coisa que devemos fazer para alcançar coisas maiores para os trabalhadores é a unidade.”

 

AFC – Existe concentração econômica na mineração privada?

CA – “No Chile há apenas seis empresas transnacionais, mas seus nomes de fantasia são numerosos e a esse respeito o Estado faz ouvidos surdos e vista grossa.”
AFC – O que você acha do “royalty” ou sobretaxa impositiva aprovada pelo Congresso para a exploração mineira privada?

CA – “Mais uma vez nosso mais precioso recurso natural não renovável que é o cobre foi presenteado. E sentimos que o país espera que os trabalhadores da mineração despertem para fazer frente a um novo projeto que poderia resolver muitos problemas do Chile e de seu povo.”  
AFC – Junto com o cobre, a empresa privada pega algum outro mineral devido a seu baixo refinamento no Chile? Pagam por eles?

CA – “De fato. No concentrado vai todo tipo de mineral e não se paga um único centavo por essa exportação. Por isso, o empresariado não quer refinar o metal no nosso país”.
Mais além de Collahuasi
AFC – Algum partido político tradicional representa os interesses dos trabalhadores do cobre?

CA – “Nenhum.”
AFC – Tem sentido para você a independência política dos interesses dos trabalhadores?

CA – “Desde o golpe de Estado, os trabalhadores se despolitizaram e política não significa pertencer a um partido tradicional. Desde a ditadura, os trabalhadores perderam qualquer opinião em relação às leis trabalhistas e muitas outras coisas. Há pessoas que tomam decisões por nós, mas só estamos indo de um equívoco a outro”.

 
AFC – Você vê elementos de recomposição do movimento operário a nível nacional?

CA – “Acreditamos nas mudanças e isso nos faz seguir adiante.”
AFC – Na FMC estão trabalhando democraticamente em torno de algum projeto mais amplo sobre as políticas de cobre que vá além dos interesses do próprio setor?

CA – “Acreditamos que o discurso da Confederação Mineira do Chile tem sido claro. Estamos interessados em reivindicar por nossos trabalhadores e entendemos que somos chilenos e por isso podemos dar muito mais ao nosso país.”
AFC – Hoje, o cobre está atingindo preços históricos devido à demanda asiática, particularmente da China. O país está aproveitando esta oportunidade para algo diferente de um mero aumento da riqueza para os investidores?

CA – “Acreditamos que o modelo se mantém agora mais do que nunca. Só falta ver a aprovação dos ‘royalties’ e saber o que virá no futuro. O que está muito claro nesses meses do governo de Sebastián Piñera é que ele governará apenas para os empresários.”

 
AFC – Para que deveria servir a exploração mineira para os chilenos?

CA – “Os cidadãos deveriam entender que se as empresas tributassem no Chile como tributam em outros países nos beneficiaríamos de uma educação gratuita e de qualidade, saúde de primeira e moradia digna.”
AFC – Outros setores da economia como a Confederação dos Bancários já estão discutindo o processo de implantação de uma greve nacional do setor. O que acontece na área de cobre? É possível a reunião de trabalhadores de diversos setores com objetivos comuns?

CA – “No momento, só podemos afirmar que, definitivamente, a Federação de Trabalhadores do Cobre (Codelco) e a Confederação Mineira do Chile iniciaram com o processo de união e assim na segunda-feira, 22 de novembro em Santiago, foi realizada a primeira reunião entre os dois diretórios onde definiram os passos a seguir no futuro, aguardando a chegada de mais organizações para formar a grande central de mineração do país.”
Uma unidade de treinamento para o bem do país
Com o propósito da greve de Collahuasi, mas com uma idéia há muito acalentada, na segunda-feira, 22 de novembro, se reuniram em Santiago os dirigentes nacionais da mineração estatal, privada e dos trabalhadores do petróleo (ENAP) para viabilizar uma coordenação inédita entre os trabalhadores. Foi anunciado que em 2 de dezembro, em Antofagasta, se reuniriam os representantes dos mineiros sub-contratados, em uma cúpula mineiro-energética sem precedentes.  
Neste sentido, Raimundo Espinoza, presidente da Federação de cobre Codelco disse que “não aceitaremos que esmaguem a greve em Collahuasi e, se necessário, nos mobilizaremos para isso. Além disso, estamos tomando medidas concretas para unificar os setores da mineração e energia, e seus respectivos trabalhadores das empresas contratantes. Já em 1993 detivemos a tentativa de privatização de Codelco, e o conseguimos com luta. Queremos defender tanto nossos interesses como os do país.”
Sobre a propriedade do metal vermelho, Espinoza disse que “a questão da re-nacionalização do cobre tem estado sempre na discussão da sociedade civil do país. Agora, eu acho que todos os setores do Chile estão empenhados em proteger a nossa riqueza principal. Todos juntos devemos buscar alternativas para re-nacionalizar o cobre. E na medida em que nos unimos, e possamos realizar uma única mobilização, uma única greve a nível nacional, nós realmente acreditaremos.”
Por sua vez, Cristian Arancibia informou que “Codelco, com 28% da produção do mineral, paga cinco vezes mais em impostos ao Estado do que os 72% produzidos pela mineração privada. Isso não tem lógica. Agora temos que acabar com a atomização dos trabalhadores. Esse é o objetivo.”
Finalmente, Jorge Matute, presidente dos trabalhadores do petróleo, a ENAP, enfatizou que “queremos conseguir uma grande unidade mineiro-energética. Estas são duas áreas chaves para o desenvolvimento do Chile”, acrescentando que “Sebastián Piñera começou com um plano de demissões em massa em quase todas as empresas públicas. Só na ENAP foram anunciadas 530 demissões (de um total de 3.000 trabalhadores). O mesmo ocorre nas ferrovias e correios. Mas os trabalhadores estão perdendo o medo. Estamos mobilizados, estamos dispostos a lutar por nossos direitos. E não aceitaremos na ENAP que as perdas devido à má gestão da administração sejam pagas pelos trabalhadores e nem que o petróleo seja privatizado, objetivo claro de governo”.

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