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WikiLeaks: As veias abertas do Departamento de Estado

06/12/2010

por Hugo Scotte, dirigente do PSOL/RS

Mais de 250.000 documentos do Departamento de Estado dos Estados Unidos, vazados pelo site  Wikileaks e distribuídos simultaneamente numa espécie de pool internacional de comunicação, do qual participaram os jornais The New York Times (EUA), Le Monde (França), a revista Der Spiegel  (Alemanha), The Guardian (Grã Bretanha) e El País (Espanha), traçam um mapa da política externa (secreta) estadunidense e de certas “operações encobertas” que se estende pelas regiões mais conflitivas do planeta.  Nesses documentos, o tipo de preocupações, as análises e as obsessões do governo dos EUA  e seu Departamento de Estado, comandado por Hillary Clinton, aparecem com uma nitidez espantosa e colocam em xeque toda a diplomacia não só do presidente Barak Obama e sua equipe, mas também a de seus antecessores. O período coberto pelos documentos vai de dezembro de 1966 até fevereiro deste ano.

Uma das mais escandalosas revelações são as instruções a seus diplomatas para espionar as Nações Unidas.

O Departamento de Estado solicitou o ano passado a funcionários de 38 embaixadas e missões diplomáticas informação detalhada e sigilosa sobre as Nações Unidas, incluído o seu próprio Secretário Geral, o sul-coreano Ban Ki-Moon, e a sua equipe e, especialmente, os representantes de Sudão, Afeganistão, Somália, Irã e Coréia do Norte.

Os documentos enviados pelas embaixadas ao Departamento de Estado expõem os segredos da diplomacia americana, incluindo ações de espionagem, manobras ocultas e críticas a líderes mundiais, golpes de Estado e corrupção.
Outras informações sugerem, entre outras coisas, a pressão do governo da Arábia Saudita para atacar o Irã, observações críticas de vários chefes de Estado europeus, os detalhes dos movimentos dos EUA durante o golpe que depôs Manuel Zelaya em Honduras e a confirmação da hostilidade diplomática de Washington em relação aos governos de Hugo Chávez na Venezuela e Cristina Fernández na Argentina (o Departamento de Estado chegou a pedir um relatório sobre a sua saúde mental).  Sobre o primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi, se detalham  suas “festas selvagens” e expôs a profunda desconfiança que desperta em Washington, tanto ele quanto o presidente  francês, Nicolas Sarkozy. Também qualificam a Wladimir Putim como o verdadeiro “homem forte” da Rússia.

Também certas suspeitas nunca confirmadas da opinião pública mundial agora são certezas, por exemplo, a existência de armas nucleares americanas na Bélgica e Holanda.

A medida que sejam publicadas mais informações contidas nos documentos, novas revelações aparecerão.

Coletando informação

O grande vazamento coloca a nu a verdadeira diplomacia, a política real de relações internacionais da potência hegemônica, seus métodos, muitas das suas fontes, os elementos levados em conta para elaborar as análises que podem resultar em políticas concretas, negociações e ofensivas diplomáticas e as chamadas “operações encobertas”: espionagem, corrupção, prisões ilegítimas, assassinatos, violações aos direitos humanos e à autodeterminação das nações amigas, neutrais ou inimigas.

As informações sobre a personalidade e o “entorno” de líderes mundiais e outras personalidades destacadas, seus hábitos, suas fraquezas, são comuns na “diplomacia encoberta”. Os minuciosos detalhes de muitas das informações solicitadas pelo Departamento de Estado e as respostas recebidas podem, à primeira vista, parecer banais. Não são. Parece muito pouco relevante o fato de que Muammar Kadafi  possa usar botox, aparentemente não passa de uma curiosidade. Mas, se a situação o permite, se o império o considera imprescindível, essa informação, nas mãos adequadas, pode servir para planejar o assassinato  do líder líbio. Parece um delírio? É só lembrar a quantidade de planos da CIA para liquidar a Fidel Castro que vão desde um peixe mecânico carregado com explosivos, um milk-shake envenenado ou um vírus letal que produziria uma doença cujo primeiro sintoma seria fazer cair a barba e o cabelo do dirigente cubano. (Em 1967, o próprio diretor da CIA, Richard Helms, determinou o abandono dessas operações e ordenou uma investigação sobre o caso, tornada pública em um relatório de 1994).

Para que o Departamento de estado necessitava o DNA dos quatro candidatos à presidência de Paraguai?

Por que solicitou informações biográficas, biométricas e financeiras de líderes palestinos?

Qual o interesse na “saúde mental” da presidente argentina Cristina Fernández?

Na Espanha, segundo El País Em 14 de abril do ano passado, o fiscal Zaragoza telefonou à embaixada (americana) para contar que ele faria todo o possível para que o caso de Guantánamo não caísse em mãos de Garzón, e sim do juiz Ismael Moreno. Zaragoza contou que, se Garzón se empenhava em ficar com o caso, ele mesmo arejaria que esse juiz optou por não investigar nada ao respeito quando teve dados para fazê-lo anos antes (relatório “não classificado, só de uso oficial” de 5 de maio de 2009)”.

Outro exemplo é o de Honduras.

Manuel Zelaya, presidente deposto por golpe militar em Honduras

 Durante todo o processo do golpe de Estado, o governo americano conhecia o que se preparava. E a embaixada americana, ao transmitir seus informes, qualificava como ilegais (de acordo com as leis e a Constituição do país) todos os processos e mecanismos aparentemente “constitucionais” para derrocar o presidente Manuel Zelaya. A pesar disso, os Estados unidos acabaram apoiando a farsa eleitoral e reconhecendo o governo ilegítimo de Porfirio Lobo.

No Brasil, “A Polícia Federal brasileira frequentemente detém indivíduos com vínculos com terrorismo, mas os acusa de uma variedade de delitos não relacionados com o terrorismo para evitar chamar a atenção da imprensa”, diz um telegrama do então embaixador dos EUA em Brasília, Clifford Sobel, em janeiro de 2008. Sobel assinala que entre as acusações utilizadas para ocular os supostos terroristas estão as práticas de “narcotráfico e contrabando”. (UOL notícias, 29/11/2010, citando matéria da Agência EFE).

“Os documentos provam o enorme jogo que se desenvolve em torno da China, cujo predomínio na Ásia se dá quase por aceito, ou os esforços por cortejar a países da América Latina para isolar ao venezuelano Hugo Chávez.

Às vezes, as expressões usadas nestes documentos são de tal natureza que podem dinamitar as relações dos Estados Unidos com alguns de seus principais aliados; em outras, podem ficar em risco alguns projetos importantes de sua política externa, como a aproximação a Rússia ou o apoio de certos Governos árabes.

O alcance destas revelações é de tal calibre que, certamente, poderá se falar de um antes e um depois no que respeita aos hábitos diplomáticos. Este vazamento pode acabar com uma era da política externa: os métodos tradicionais de comunicação e as práticas empregadas para a consecução de informação ficam questionados a partir de agora.

Todos os serviços diplomáticos do mundo, e especialmente dos Estados Unidos, onde este vazamento se soma a outros anteriores de menor difusão com documentos relativos ao Iraque e Afeganistão, terão que recolocar-se desde este momento seu modo de operar e, provavelmente, modificar profundamente suas práticas.” (Vicente Jiménez / Antonio Caño El País – 28/11/2010).

 

Além das informações pontuais que mostram os documentos, os métodos utilizados e a escandalosa manobra de converter praticamente todas as delegações diplomáticas americanas em correias de transmissão de uma gigantesca máquina de espionagem, mostram a arrogância do imperialismo yankee, que se considera o dono do mundo e com direito a agir em qualquer parte, em qualquer momento, de forma legal ou ilegal.

O que o vazamento demonstra é uma flagrante e permanente violação ao direito internacional.

Guerra fria na internet

Evidentemente, estamos vendo a ponta do iceberg dos 250.000 arquivos. Os responsáveis de sua divulgação já aclararam que “serão responsáveis e não publicarão dados que afetem a segurança”. Se por um lado parece uma posição responsável, por outro podemos prever a enorme pressão que o Governo Obama e outros governos farão com o objetivo de censurar a maior quantidade de informação possível, sem contar os próprios interesses comerciais e políticos dos meios de comunicação que estão difundindo os documentos vazados.

Mas é inquestionável que, apesar do imenso controle que as grandes potências e corporações tentam exercer sobre o direito à informação, a situação foge das suas mãos.

Foi alguém com um amplo acesso ao sistema de informações entre o Departamento de Estado e suas representações diplomáticas quem consegui vazar essa enorme massa de documentos secretos, ou alguém invadiu o sistema SIPDIS, (Secret Internet Protocol Distribution) utilizado pelo governo e, pelo menos, 180 embaixadas. E essas informações vão parar, de forma sigilosa em  Wikileaks (que significa algo como “vazamento rápido” em inglês). E o diretor do site já anunciou que o próximo vazamento será de documentos que afetam a um grande banco.

É verdade que o caráter anárquico da internet outorga certa liberdade de informação e de opinião, mas também facilita o controle dos aparelhos de Estado, as grandes corporações e os serviços de espionagem. Mas  Wikileaks e outros sites independentes também existem, e funcionam como contrapartida.

Não adiantam as reclamações de Hillary Clinton de que o vazamento foi uma atitude irresponsável que afeta a segurança das nações, as relações diplomáticas e a vida de pessoas. Agora a arrogante Secretária de Estado tem que dar explicações a todo o mundo.

A Casa Branca teve que admitir a sua derrota. O sistema SIPDIS, a rede de distribuição de informação do governo americano e que é usada por instituições militares, agencias como o FBI, a CIA ou a DEA e suas representações diplomáticas foi fechado, “tirado da tomada”, segundo fontes anônimas citadas pela revista Time em um artigo do Jornalista Massimo Calabresi. Apesar das exigentes medidas de segurança, se calcula que quase 3 milhões de pessoas tinham acesso ao sistema. Já em julho deste ano, Wikileaks vazou 76.607 relatórios sobre a guerra no Afeganistão e, em outubro, 391 832 documentos sobre operações militares no Iraque.

 A vulnerabilidade do imperialismo norte-americano

O que o vazamento deixa claro é que os Estados Unidos continuam se considerando o grande sheriff do mundo mas seus sistemas de segurança são vulneráveis. 

Como é vulnerável a sua economia, epicentro de uma crise só comparável à de 1929 e que ainda se alastra pelo planeta. Enquanto as notícias do vazamento percorriam o mundo, o presidente Barak Obama anunciava a intenção por parte do governo de congelar por 2 anos os salários dos funcionários públicos.

Os EUA se afundam na guerra  de Afeganistão e não podem resolver os conflitos decorrentes da ocupação de Iraque, se vem obrigados a desvalorizar sua própria moeda para enfrentar a disputa comercial onde a China aparece como a grande ameaça a sua hegemonia.

O vazamento dos segredos da sua política exterior é mais um sintoma da vulnerabilidade da   potência imperialista que sofre uma crise global: econômica, política, de credibilidade e agora também diplomática.

***

Anexo documental

Que são os papéis do Departamento de Estado?

Resumido de El País – 28/11/2010
É um trabalho de leitura, análise, seleção, contraste e interpretação jornalística de mais de 250 mil documentos que vazaram pela organização Wikileaks em 28 de novembro de 2010. Entre os arquivos estão as comunicações enviadas pelo governo central dos EUA (Departamento de Estado, Defesa, etc.) para as suas missões diplomáticas no mundo e as respostas recebidas, mensagens compartilhadas entre várias embaixadas dos EUA, e também entre as delegações de países e missões de outros países. O New York Times, The Guardian, Der Spiegel, Le Monde e El País tiveram acesso prévio à comunicação e publicação de conteúdo simultaneamente.

Quão relevantes são os documentos que vazaram?
O vazamento é de grande importância, uma vez que revela detalhes de grandes campanhas militares e conflitos diplomáticos em curso e destaca práticas das embaixadas e do Departamento de Estado até agora inéditas.
Quantos documentos vazaram?
No total são 251 287 abrangindo o período entre dezembro de 1966 e fevereiro de 2010, embora a maior parte corresponda aos dois últimos anos.

Qual o nível de confidencialidade dos informes?
Existem seis tipos de documentos, listados  em ordem de maior a menor nível de privacidade:
1. Secredo NOFORN (não entregável a indivíduos ou outros países que não sejam os EUA)
2. Segredo.
3. Reservado “NOFORN”
4. Reservados
5. Sem classificar / Somente para uso oficial
6. Sem classificar
Quais os países afetados?
Praticamente todo o mundo, embora o impacto das comunicações das embaixadas estejam relacionadas especialmente com o Irão, Paquistão, Afeganistão, Turquia e Rússia.

Que países podem ver -se mais afetados pelos vazamentos?

O maior prejudicado é claramente os Estados Unidos. Os documentos nascen sempre de funcionários deste país, seja através de uma de suas embaixadas ou através da Administração, em Washington. No entanto, muitos outros Estados e organizações mencionados na comunicação, podem ser também obrigados a tomar medidas de proteção após a publicação.

Em que idioma estão escritos os documentos?
Totalmente em Inglês. El País optou por não traduzir os documentos para que os leitores posam ver o conteúdo tal como ele foi recebido. Nos relatórios publicados, foram eliminados certos dados ou nomes que poderiam comprometer a segurança.

Quantos documentos referem-se a Espanha?
Há aproximadamente 10.000 que se referem a Espanha e 3.600 comunicações da embaixada dos EUA em Madrid.
Os documentos que vazaram afetam o Governo, o Rei, o Judiciário, a classe empresarial e altas instituições do país.

Que cobertura é fornecida por El País?
O jornal, que tem os documentos no seu poder, irá relatar extensivamente durante vários dias aqueles episódios que selecionou como os mais importantes e melhor documentados. A equipe que trabalha no projeto é composta por dezenas de jornalistas, incluindo quase todos os correspondentes, bem como pesquisadores e especialistas em informações nacionais e internacionais de El País.

Podem ser consultados os 251.287 documentos no site de El País?
Não. Somente serão publicados os trabalhos que acreditamos que não representam uma ameaça para a segurança de pessoas ou países.

Existe uma coordenação entre os meios de comunicação que estão em poder dos arquivos?
Há um acordo sobre a publicação simultânea destes documentos de importância internacional e a data da sua divulgação. Os meios de comunicação são livres para decidir sobre a seleção, avaliação e publicação de trabalhos que afetam seus países.

Há algum precedente para um vazamento massivo deste tipo?
Em 22 de outubro, Wikileaks vazou outros 391 832 documentos sobre operações militares no Iraque e o papel desempenhado na campanha pelas tropas dos EUA e iraquianas. Anteriormente, no início de julho, se fizeram públicos 76.607 relatórios sobre a guerra no Afeganistão.

Quais foram as conseqüências do vazamento anterior?
Os repetidos vazamentos de Wikileaks estão obrigando e obrigarão no futuro à reformulação dos métodos de comunicação que os EUA estabeleceram para seus canais diplomáticos e militares. Há investigações abertas pelo governo dos EUA para esclarecer a origem de vazamentos anteriores. O Pentágono pediu à imprensa não divulgar os documentos.

Quem é o responsável pelo vazamento? Uma conexão criptografada permite a qualquer pessoa enviar anonimamente para Wikileaks qualquer tipo de arquivo sem deixar nenhum vestígio. Até agora, há um preso, o soldado estadunidense Bradley Manning que pertence ao departamento de inteligência, com sede em Bagdá (Iraque). Ele é acusado de fornecer documentos secretos para Wikileaks, incluindo um vídeo de 39 minutos onde um helicóptero Apache abate dois funcionários da agência de notícias Reuters e outras 10 pessoas na capital iraquiana.

O que é Wikileaks?
Wikileaks é um site dedicado à publicação de vazamentos de informações sigilosas e anônimas, especialmente de natureza governamental, mas também bancária, religiosa ou empresarial. Sua base de dados contém mais de um milhão de documentos. Wikileaks começou a difusão de seus trabalhos em 2007, mas foi em abril de 2010, quando alcançou repercussão mundial ao publicar o vídeo onde morrem dois funcionários de Reuters atingidos por disparos estadounidenses. 

Julian Assange, um dos criadores do Wikileaks, procurado pela Interpol

 

Em julho, publicou o que até então era o maior vazamento massivo da história: cerca de 77 mil documentos sobre a guerra no Afeganistão. Três meses depois, o portal difundiu cerca de 400.000 registros sobre a guerra no Iraque. Wikileaks é financiado por doações anônimas e tem um orçamento aproximado de  712.000 euros por ano. Assegura que tem 10 mil doadores.

O cofundador e atual diretor é o australiano Julian Assange, antigo hacker, jornalista e editor de 39 anos de idade. Tem um pedido de captura internacional lançado pela Interpol, depois de uma ordem emitida pela justiça sueca em agosto passado por suposto acosso sexual e violação. A Suécia indeferiu o seu pedido de residência. Atualmente vive na clandestinidade. Esta semana o jornal El País fez uma entrevista exclusiva (e secreta) com “o homem que faz tremer o Pentágono” O pessoal permanente do site (cujo servidor está na Suécia) é de 20 pessoas e tem quase mil colaboradores, incluindo jornalistas, advogados e pessoal de informática. Garante que contrasta a veracidade dos documentos que publica.

O Pentágono formou uma equipe de 120 pessoas para frear suas filtrações.

O secretário do Departamento de Justiça dos Estados Unidos, Eric Holder, anunciou na segunda-feira, 29/11  a abertura de uma investigação criminal sobre o vazamento de mais de 250.000 documentos divulgados em 28/11/201 pelo site Wikileaks sobre comunicações secretas entre o Departamento de Estado e suas embaixadas em todo o mundo.
De acordo com Telesur, o contra-ataque americano ao site começa com uma “investigação criminal”, revelando segredos que estão comprometendo os diplomatas de Washington. “A divulgação destes documentos coloca em grave risco a autoridades dos EUA no mundo”, disse Holder.

(Fonte: Juventud Rebelde – Cuba: http://www.juventudrebelde.cu/internacionales/2010-11-29/inicia-eeuu-investigacion-criminal-contra-wikileaks/).

Ver texto original (em espanhol) em: http://www.elpais.com/articulo/internacional/Preguntas/respuestas/papeles/Departamento/Estado/elpepuint/20101128elpepuint_11/Tes 

 

Entrevista com Julian Assange em:

http://www.elpais.com/articulo/reportajes/Cita/secreta/hombre/hace/temblar/Pentagono/elpepusocdmg/20101024elpdmgrep_1/Tes

Para consultar alguns dos documentos disponibilizados até hoje (em espanhol):

 

Mapa internacional da correspondência secreta entre o Departamento de Estado e as representações diplomáticas dos EUA

Fonte: El País

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