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Argentina: Pino Solanas Presidente em 2011

16/12/2010

PINO SOLANAS

Surge o Movimento “Proyecto Sur” na Argentina, uma nova alternativa anti-imperialista hermana do PSOL.

Por Pedro Fuentes, Secretário de Relações Internacionais do PSOL

Em Buenos Aires, terça-feira, 7 de dezembro às 19h  no estádio do Clube Ferrocarril Oeste deu-se um passo fundamental para construção de uma alternativa nacionalista, democrática e antiimperialista frente ao falso progressismo do kirchnerismo e da direita. Nesse dia, a essa hora, nesse ato, sob o lema “Unidos podemos mudar a Argentina” se fortaleceu e se ampliou o movimento “Proyecto Sur” (Projeto Sul), que levou Pino Solanas a receber quase 25% dos votos em 2007, nas eleições para prefeito da cidade de Buenos Aires. O Proyecto Sur se tornou uma frente, na qual ingressaram novas forças políticas, entre elas o “Movimiento Socialista de los Trabajadores (MST)”.

 O entusiasmo e o significado de um mini-estádio lotado

 

7 de dezembro de 2010

 Cerca de 4.000 (quatro mil) pessoas assistiram o ato. E sua imensa maioria jovens. As juventudes dos diferentes componentes do movimento Proyecto Sur entraram juntas, unidas sob as bandeiras do Movimento unificado, deixando de lado as que identificavam uma ou outra corrente. Dessa forma, se fez uma “torcida” que brilhou no ato por seu entusiasmo e seus cantos e contagiou o mini-estádio toda a noite com o canto “lo pide la gente, vamos Pino, presidente”. Mais uma vez se comprovou que a união não produz apenas uma simples soma aritmética, mas que sempre quando a convergência é firme, se multiplica muito mais que por dois. A outra geração que impactava, nesse caso pelo seu peso e pela clareza política eram os já grisalhos, os experimentados militantes, formados nas mais distintas vertentes do rico processo de lutas que viveu a Argentina nos últimos cinqüenta ou sessenta anos. Ex-militantes da FORJA (Fuerza de Orientación Radical de la Joven Argentina), passando pela resistência peronista, os mais “novos” que começaram no Cordobazo (1969) e aqueles que surgiram da luta contra a ditadura ou na Guerra das Malvinas (1982). Dessa forma, uma nova juventude e uma camada rica em experiência se deram as mãos. A pluralidade se traduziu em uma boa lista de oradores e ótimos discursos.

 Houve dezenas de adesões, entre as quais estiveram o senador por Córdoba, Luis Juez e o Prêmio Nobel da Paz, Adolfo Pérez Esquivel, além de representantes do PSOL do Brasil e do PSUV da Venezuela. Uma destacada presença foi das Madres de Plaza de Mayo.

Além dos oradores, fizeram parte do palco os deputados das organizações Proyecto Sur, Buenos Aires para todos, Libres del Sur, além de Víctor de Genaro da CTA (Central de los Trabajadores Argentinos), que também compõe a frente. Antes de pino houve seis discursos. Falou primeiro um dirigente da Intransigencia Radical, depois Alejandro Bodart (MST), os deputados Claudio Lozano (Buenos Aires para Todos), Victoria Donda (Libres del Sur) e Mario Mazitelli (Partido Socialista Auténtico). Alejandro Bodart foi contundente e disse que sua incorporação vai mais além da disputa eleitoral: “Viemos para ficar e iniciar um processo de confluência que esperamos que se aprofunde após as eleições”. Mostrou que está dando muito mais que um passo tático. Afirmou também que “estava ali para construir uma alternativa de poder para governar”.

O discurso mais abrangente foi obviamente o de Solanas. Disse que este projeto é para “romper o bipartidarismo do Partido Radical e do Partido Justicialista”, que ambos eram faces parecidas do modelo neocolonial. Que ainda que haja medidas progressivas do kirchnerismo – como a política contra os militares da ditadura – “o governo do Partido Justicialista representa um falso progressismo que, para além dos discursos tem uma cara neoliberal”.   Foi contundente e claro ao fazer a formulação programática do Proyecto Sur, cujo eixo é a emancipação do país. Falou da luta democrática para reformar a Constituição e aproximá-la do povo e para que “acabe a partidocracia”. Fez uma enfática denúncia do entreguismo do governo e da necessidade de defender os recursos naturais, incluindo a água. Colocou a necessidade de parar com a entrega da mineração a céu aberto na Cordilheira e pré-cordilheira dos Andes, que hoje é uma fonte de saque das empresas multinacionais (vale destacar que a mineração extrativa nas cordilheiras converteu-se, em poucos anos, na segunda fonte de recursos e da formação do PIB, perdendo somente para a soja). Rechaçou o desmantelamento ferroviário e aderiu à tarefa de recuperar a antiga rede ferroviária. Esse tema gerou um movimento social que estava presente no ato. Além disso, Solanas denunciou a escandalosa falácia que é a dívida pública, os acordos com o Clube de Paris e o FMI, destacando que não se pode voltar a pagar a dívida externa, pois já foi paga várias vezes. Fora o fato de ela ser inconstitucional, por ter sido contraída pela ditadura. Marcou também a importância da luta contra a corrupção do governo do Partido Justicialista, havendo não só uma “partidocracia política” corrupta, mas também uma direção sindical ligada ao governo – cujas “patotas” há pouco mataram um ativista socialista que defendia a efetivação dos terceirizados – à qual acusou de “mafiocracia sindical”. Dirigindo-se a todos os representantes no palco foi enfático ao afirmar que este era um novo projeto que resgata as bandeiras da FORJA e toda a luta nacional antiimperialista e que abarca desde forças socialista até os autênticos lutadores pela emancipação nacional. Um projeto aberto, no qual há lugar para todos que estão pela emancipação do país e contra a corrupção.

A contundência e clareza de todos os discursos têm também uma raiz objetiva. Levanta-se um programa de tarefas concretas que são as que, na realidade, tem pela frente o movimento de massas na Argentina e se empalma com o sentimento de um importante setor dos trabalhadores e do povo que, de uma ou outra forma, já vem lutando pelas mesmas reivindicações.

 

Na onda do nacionalismo radical latinoamericano



 O Movimento Proyecto Sur é parte e se soma ao rico processo que atravessa nosso continente há uma década. Ao falar de defesa dos recursos naturais o Proyecto Sur, sintoniza com a luta contra a privatização da água na Bolívia, com a nacionalização do gás e do petróleo neste país e com as sucessivas nacionalizações que vem levando a cabo o governo bolivariano da Venezuela. Ao falar de não pagar a dívida externa retoma o caminho seguido pelo governo Correa que, depois de fazer uma auditoria da dívida pública, se respaldou jurídica e politicamente pagar só uma parte. E ao falar da necessidade de uma reforma constitucional, também está sendo parte das Assembléias Constituintes realizadas no Equador, Bolívia e Venezuela que promoveram mudanças muito progressistas, na tentativa de fechar o caminho à velha partidocracia neoliberal em seus paises e abrir o caminho para uma maior participação popular.

Ainda que estes governos não tenham erigido o socialismo como sistema em seus paises, eles tem se confrontado  fortemente e rompido com a burguesia tradicional e entreguista. É a dinâmica concreta da luta de classes em nosso continente que tem dado origem a este processo progressivo de independência política e econômica que, no que se refere à quantidade de paises que abarca e seu caráter continental, nunca antes havíamos visto na América Latina.

O que ocorre na Bolívia, Equador e Venezuela, não pode ser explicado apenas e simplesmente, pelo carisma e determinação de Evo, Chávez e Correa. Tem a ver com profundas mobilizações que ocorreram nestes países, insurreições, como a Guerra da Água e a do gás na Bolívia; o Caracazo de 1989 e a derrota do golpe militar anti Chávez em 2002 na Venezuela; os sucessivos levantes equatorianos que tiraram quatro governos incapazes de sair da agenda neoliberal no Equador. Graças às mobilizações nestes países – como agora na Argentina – se abriu um grande hiato entre o povo e os velhos partidos aliados aos EUA, e emergiram novos governos antiimperialistas ou nacionalistas radicais. 

 O Argentinazo foi mais uma destas insurreições populares, e ainda que tenha demorado quase dez anos para a construção de uma alternativa similar a destes países, largos passos estão sendo dados. Depois de 2001 surgiram os governos de Duhalde e logo Kirchner que capitalizaram estes processo de lutas sociais (que não pararam até hoje) e fizeram algumas concessões ou tomaram algumas medidas progressistas das quais falou Solanas, – como o “default” [não pagamento] da dívida por um período de revogação da anistia e o julgamento dos militares da ditadura. Logo, tardou a aparição de uma alternativa autenticamente nacionalista. Não por acaso está se abrindo um caminho. É resultado das lutas que não pararam, mas também o fato de que o kirchnerismo põe mais em evidencia a política entreguista e a associação com interesses das multinacionais e um setor burguês vinculado a elas.

O kirchnerismo tem características similares aos governos de Lula no Brasil e o de Mujica no Uruguai. Nestes países, na década de 80 surgiram o PT e a Frente Ampla que foram fenômenos muito progressivos de agrupamento de grandes massas. Porém, chegaram ao poder em 2000 e, contrariando as aspirações populares, converteram-se em partidos que governaram em estreito acordo com os setores burgueses e as grandes multinacionais instaladas nesses países. Para além de posturas progressivas que possa haver em alguns pontos internacionais (como o reconhecimento do Estado Palestino) e das migalhas dadas no caso do Brasil com a “Bolsa Família”, a essência dos governos é a defesa dos interesses das classes dominantes e do capitalismo internacional.

Se na Argentina, graças ao processo mais dinâmico da luta de massas surgiu um espaço para criar um pólo alternativo popular, no Brasil existe o PSOL. No nosso caso, a alta popularidade de Lula diminui o espaço que se abre pelas brechas do regime. No entanto, em ambos os países, após um longo período de estabilidade fruto de um crescimento da produção, a crise econômica mundial está chegando e colocando na ordem do dia planos de ajuste e com isso a possibilidade de forte decepção do povo.

Argentinazo

Argentina é parte de uma situação continental que tem suas lógicas e peculiaridades nacionais. Seguramente, o “Proyecto Sur” olhará para a América Latina para vincular-se aos projetos similares, já que neste período de globalização a defesa de um projeto nacionalista não pode realizar-se isolada desse marco continental. Não há independência para nenhum país se não no marco da nova América Latina que está se gestando e em uma nova integração continental que se assemelha ao modelo da ALBA, muito diferente do modelo do Mercosul, dominado, como várias vezes já alertou Hugo Chávez, pelas empresas multinacionais.

Uma nova síntese que integra o nacionalismo antiimperialista e a esquerda socialista

 

É difícil não ser emocionalmente otimista ante um novo fato como o que se protagonizou em 7 de dezembro. Mas se trata de um otimismo racional que se sustenta, pois se criaram condições objetivas e subjetivas para que essa nova alternativa argentina se assente sobre bases firmes e sólidas. Com efeito, há novas condições para uma unidade superior entre as forças nacionais, antiimperialistas e a esquerda socialista, como explicou Solanas: “estamos convocando uma nova síntese, o que significa compreensão, memória para poder entender o que nos aconteceu antes, significa generosidade, jogar pela janela os preconceitos”. Também disse que milhões de argentinos estão esperando este espaço e que suas bandeiras são produto “de todas as enormes lutas sociais e políticas progressistas de outras décadas”. 

Desaparecidos políticos

 Olhando para todos os integrantes do palco terminou esta parte de seu discurso dizendo que “aqui estão presentes e se levantam as bandeiras sociais da esquerda, de todas as lutas, de todos aqueles trabalhadores e toda aquela juventude orgulhosa que das fábricas e do campo, ao longo de mais de um século, deixou resquícios de sua vida e milhares de vidas, entre elas nossos 30 mil desaparecidos, na luta por um mundo com justiça social. Estão as bandeiras de nossos irmãos socialistas e de todas as causas da esquerda. Se esta marcha que iniciamos hoje tiver êxito, este espaço se fundirá em uma grande organização, generosa, aberta e transversal como tem nossos irmãos uruguaios e brasileiros”.

É uma realidade que na história argentina houve uma dissociação ou desencontro entre a esquerda denominada socialista e o movimento antiimperialista. Por exemplo, só um pequeno setor da chamada esquerda argentina compreendeu que o governo de Perón era progressivo frente ao imperialismo. Esta corrente foi parte do Partido Socialista da Revolução Nacional encabeçado por Dickman, o único partido socialista que atuava em frente única com o governo peronista. Enquanto os Partidos Socialista e Comunista “oficiais” carregaram durante toda a sua vida o fardo de terem apoiado a União Democrática (a alternativa do imperialismo contra Perón) e, logo, estar ao lado do golpe “gorila” de 1955. Palabra Obrera e algumas outras forças como a de John Willam Cooke estavam dentro do movimento peronista sendo parte ativa e importante da resistência.

Passaram os anos, passou o Cordobazo e com o Argentinazo de 2001 a esquerda se sustentou e se desenvolveu nas lutas sociais, com os piqueteiros, nas greves operárias e nas fábricas ocupadas, reabertas sob controle operário, Nesse período, especialmente como conseqüência do fracasso do “socialismo real”, esteve atomizada e dividida, com o hábito de fortes batalhas fracionais.

Graças ao Argentinazo abriram-se condições de criar um movimento que contenha todo esse processo social e eleve-o a político. Luis Zamora era o único deputado que podia transitar sem ser atacado ou insultado pelas ruas de Buenos Aires, tamanha a revolta e indignação do povo. No entanto, nem Zamora nem a esquerda socialista levaram adiante esta tarefa estratégica.

Agora esse movimento surge em outro plano, com outros componentes e com um setor dessa esquerda que deu um passo para integrar-se ao mesmo. Seguramente a própria experiência do PSOL, com seu projeto de construção de um partido amplo, no qual se unem diferentes correntes e tendências socialistas, serviu de exemplo para que, hoje, um setor dos socialistas se incorpore ao “Proyecto Sur”. Tampouco duvidamos em afirmar que este projeto como um todo se inscreve em passos similares que estão sendo dados nos países onde há governos que surgiram de partidos de esquerda ou movimentos progressistas como PT ou Frente Ampla que quando chegaram ao governo em vez de assumir posições autenticamente nacionalistas passaram a governar com as classes dominantes. Estão os companheiros peruanos do agrupamento Juntos construindo o PNP (Partido Nacionalista do Peru) de Ollanta Humala, os uruguaios do movimento 26 de Março construindo a Assembléia Popular, assim como a resistência hondurenha na FNRP que logo se transformará em um movimento para disputa eleitoral.

O PSOL tem que sentir-se – ou melhor, não duvidamos que já se sente – um partido irmão de todos esses processos, especialmente do Proyecto Sur, agora constituído.

Pino, os companheiros que formam seu movimento e as novas forças tiveram a audácia política de dar um “passo de gigante” para encabeçar uma nova alternativa de poder na Argentina. Alternativa que já é vista com muita simpatia por um setor importante do povo. A Secretaria de Relações Internacionais do PSOL esteve presente. Este é o informe do que vimos e as conclusões que tiramos. É uma contribuição para a política internacional do PSOL Em nossa opinião nos arriscamos a dizer que no estádio do “Ferro” se deu um novo e importantíssimo impulso ao processo antiimperialista e bolivariano que vive nosso continente e do qual o tem que considerar-se parte.

 

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