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A Revolução Egípcia e a Estratégia Estadunidense

27/02/2011

Por Hassan Nasrallah

Praça Tahrir

 Transmissão de 7 de fevereiro de 2011 – … hoje declaramos nossa solidariedade. Uma das formas de nossa solidariedade é defender essa revolução, essa intifada, este grande movimento popular histórico. Uma das responsabilidades de defender essa revolução é revelar sua verdadeira imagem, como todos os dados indicam… Entramos em contato com aqueles que estavam na terra, nas praças, nas ruas, os jovens e os velhos. Falamos com eles e escutamos o que eles tinham a dizer: seus slogans, músicas, cantos, palavras e declarações. Escutamos o que é dito na mídia via satélite e outros meios de comunicação. É por isso que eles, os egípcios mesmos, são os únicos que podem mostrar-nos a verdade, a forma e o conteúdo, a natureza, objetivos e esperanças de sua revolução, sua intifada…

Primeiro: nós estamos testemunhando uma revolução popular real, uma revolução nacional egípcia real. Muçulmanos e cristãos estão participando dessa revolução, assim como facções islâmicas, os partidos seculares, os partidos nacionalistas e os intelectuais. De fato, todos esses setores das classes populares estão participando dessa revolução: os jovens, velhos, mulheres, homens, padres, artistas, intelectuais, trabalhadores e agricultores. No entanto, o mais importante é a presença da juventude. A partir dessa perspectiva estamos testemunhando uma revolução completa.

Segundo: essa é uma revolução da vontade do povo, de sua determinação e de seu compromisso. As pessoas estão se expondo, oferecendo-se como mártires, fazendo sacrifícios e arriscando-se. Eles estão dormindo debaixo dos céus neste tempo frio e chuvoso. Eles estão determinando por eles mesmos o que eles querem, o que querem fazer, aonde querem ir, que regime aceitarão e que tipo de solução adotar.  Eles são os tomadores de decisão em tudo o que dizem, fazem e anseiam. Então, todas as acusações de estarem sendo parte de uma agenda externa – quem quer que seja esse dito partido estrangeiro, se é amigo ou inimigo do Egito – são acusações que não vingarão, não vingam, dada a determinação do povo egípcio e de sua brava juventude. Esse é um ponto ao qual voltarei em breve.

Terceiro: a essência e o conteúdo dessa revolução, essa intifada. É a revolução de pão, porque as pessoas têm fome? Ou é uma revolução para alcançar justiça e igualdade social? Ou é uma revolução por liberdade e democracia? Ou uma revolução por razões políticas? Ela tem algo a ver com a política externa do regime e  a postura do Egito na região, a ummah, e o mundo? Ouvimos muitas explicações e análises. Todo mundo está tentando levar as coisas numa certa direção.

 Os  amigos de Isarael e dos EUA – intelectuais, líderes políticos e a mídia com ligação íntima com esses países – querem convencer o mundo de que o que está acontecendo no Egito é apenas uma revolução por pão, uma revolução dos famintos. A verdade, no entanto, é contada a todo o mundo pelos manifestantes egípicios na Praça da Libertação.

Está expressa por suas palavras de ordem, por seu sangue, seus sorrisos, por sua braveza e por suas decisões… Isso significa que  estamos testemunhando uma revolução completa em sua essência, em suas partes fundamentais. É uma revolução dos pobres. É uma revolução dos que amam a liberdade, dos seguidores da liberdade. É uma revolução daqueles que se negam a serem humilhados e insultados porque sua nação tem se sujeitado e cedido suas vontades aos EUA e à Israel.

É uma revolução humana, política e social. É uma revolução contra tudo – corrupção, opressão, fome, delapidação dos recursos do país, e a política do regime no conflito árabe-israelense.

Egito: Reforço na luta pela libertação da Palestina?

 Quarto: é uma obrigação solidarizar-se com a revolução popular do Egito. É uma revolução nobre, que não foi manchada, mesmo com todas as acusações feitas sobre ela.

Uma das piores acusações, feitas por certas figuras do nosso mundo árabe, que temos ouvido desde o início – também ouvimos isso durante a revolução tunisiana – é que essa revolução é fabricada pela administração dos Estados Unidos – o serviço de  inteligência americana, o Pentágono e o departamento de estado estadunidense; que os americanos são os que estão por trás do movimento popular, levando o povo protestar e coordenando com a juventude, o movimeto; que os estadunidenses são os que estão conduzindo e controlando essa revolução.

Nesse dia de solidaridade, devemos dizer que essa acusação é uma grande injustiça. Nenhum árabe ou muçulmano ou qualquer ser humano livre, em qualquer canto desse mundo, pode pensar isso sobre a juventude tusiniana ou egípcia; qualquer um que faça isso, está cometendo uma grande injustiça. É uma maneira injusta falar, um insulto para as mentes e desejos dessa juventude e desse povo – para sua consciência, sua cultura e sua compreensão.

 Irmãos e Irmãs! Quem entre nós pode acreditar que os Estados Unidos estão tentando derrubar um regime que providencia todos os seus serviços e que trabalha fielmente para proteger seus interesses e  projetos na região? Alguém pode acreditar que os estadunidenses estão por trás dos protestos? É absulutamente ilógico e irracional… 

Sim, os estadunidenses estão tentando surfar na onda. Estão tentando tirar vantagem da revolução. Estão tentando travar e absorver essa revolução. Estão tentando embelezar sua feia imagem em nosso mundo árabe e islâmico, e estão tentando apresentar-se como os defensores do povo, de seus direitos, vontades e liberdades, depois de décadas de absoluto apoio para a pior das ditaduras já vistas em nossa região. Esse é o maior perigo contra o qual nossas pessoas em revolta, nossos movimentos de resistência devem estar consientes e atentos.

Irmãos e irmãs… A administração dos Estados Unidos tem realizado muitos estudos e pesquisas de opinião em nossa região, especialmente no mundo árabe e islâmico. Isto quer dizer: o que apontam suas opiniões? O que pensa o povo? O que aceitam? O que rejeitam? E quais suas perspectivas? Os resultados foram bastante claros…

Eles publicam em jornais e revistas – especialmente aqueles especializados em assuntos estratégicos – e fóruns e conferências… todos os estudos e pesquisa de opinião chegaram às seguintes conclusões:

 A esmagadora maioria de novo povo árabe e islâmico está contra as políticas dos Estados Unidos. Rejeitam-nas. Isso não significa que são inimigos do povo estadunidense. Talvez daqui a algum tempo a gente descubra que a maioria do povo estadunidense é um povo pobre que não sabe o que está se passando no mundo e que seus interesses e prioridades são totalmente diferentes. A maioria esmagadora da população de nosso mundo árabe e islâmico rejeita as políticas dos Estados Unidos por razões óbvias: o absoluto apoio à Istael e suas guerras desde a criação da Entidade Sionista na Guerra de Gaza em 2008 (também vimos isso na guerra do Líbano em 2006); o absoluto apoio estadunidense a ditadores corruptos, aliados dos Estados Unidos na região;  as próprias guerras estadunidenses e crimes no Iraque, Afeganistão, Paquistão e outros lugares no mundo árabe e islâmico; a divulgação de mentiras por parte dos Estados Unidos e o fato de existir dois pesos e duas medidas em tudo, quando se trata de direitos humanos, liberdades e democracia.

Esses estudos e pesquisa de opinião estadunidenses também revelaram que há grandes mudanças nos negócios na região. Foi o que Hillary Clinton insinuou há poucas semanas atrás. Os estadunidenses tiveram certeza de que os regimes que são seus aliados e colaboram com Israel estão contra a vontade do povo quando se trata da relação política com Israel e os EUA e, por isso, sabem que não serão capazes de suportar a pressão popular por muito tempo.

 O povo já está farto desse status quo. As pesquisas e estudos mostraram também que esses regimes, seus líderes, suas figuras, não têm nenhuma popularidade, respeito e estima entre as pessoas; ao mesmo tempo, as pesquisas mostraram que outras figuras, outros líderes ocupam os primeiros, segundos e terceiros lugares por causa de suas posturas em relação à questão palestina e à política dos EUA.  Então, a administração americana expressou sua inquietação.

 Isso não significa que a administração estadunidense está trabalhando para derrubar o regime que o serve. No entanto, ele está se preparando para o que pode acontecer: eles aprenderam que se o povo que está nas revoltas e está tentando expressar sua rejeição ao regime em cada país, a melhor saída é ficar no meio do caminho; eles aprenderam com a sua experiencia no enfrentamento da revolução no Irã  bem com de todas as suas experiências anteriores que eles não deveriam apoiar a repressão e o enfrentamento sangrento, porque como sabem, o resultado de confrontos sangrentos com o povo poderia ser catastrófico para eles próprios e para seus aliados, seus agentes,  e seus novos e antigos funcionários. É por isso que, agora, mantêm-se em cima do muro. Estão tentando apresentar-se como alternativa – como os defensores do povo e de suas escolhas – e tentando garantir um tipo de transição de poder, autoridade e liderança que possa preservar suas relações e alianças e os projetos e interesses dos EUA…

E agora, Obama?

 O que preocupa o regime dos EUA na região são seus próprios interesses e os de Israel. Não importa, de fato, quem está no poder. Eles podem abandonar qualquer um que esteja no poder a qualquer momento. Mais precisamente, não importa quem está no poder – se quem está no poder é ou não Islâmico não importa para os EUA. Ninguém lá liga para isso. Os estadunidenses não vetam ninguém baseando-se no fato de se é muçulmano, participa de algum movimento islâmico, se é de esquerda, de direita, nacionalista, secularista, um padre, um sheik, um patriarca ou um bispo.  Não, isso não os preocupa. Os EUA não estão preocupados com uma posição ideológica de um líder. O que é mais importante é isso: Esse regime, esse líder, está comprometido com os interesses dos EUA e de Israel? Se a resposta for sim, sem problemas, independente da postura ideológica do líder e do regime…

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