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Revolução e contra-revolução na Líbia e no mundo árabe

19/03/2011

Por Pedro Fuentes, Secretário de RelaçõesInternacionais do PSOL

A Revolução democrática líbia pela derrocada de Khadaffi é uma parte importante, fundamental, da onda de levantes populares dos países árabes cujos maiores triunfos são a derrocada de dos regimes autocráticos no Egito e na Tunísia. Este processo também chegou a Bahrein, Iemen e, em menor medida, Argélia e Marrocos. Nestes países os governos fizeram mudanças políticas preventivas, mas a mobilização e o descontentamento não pararam. Enquanto no Egito e na Tunísia as mobilizações populares determinaram a queda das autocracias e o estabelecimento de governos provisórios de transição, na Líbia a insurreição do povo contra a ditadura repressora de Khadaffi desencadeou uma guerra civil e a divisão do exército: uma parte com o ditador, outra com a rebelião.

Os grandes setores do povo pobre insurretos lutam em desvantagem militar contra Khadaffi que tem lançado todo o poder de fogo das modernas armas aéreas e terrestres. Armas que lhe foram fornecidas há anos pelas potências imperialistas que são seus aliados em negócios e agora por Marrocos e Argélia, países nos quais o ditador está recrutando seus mercenários.

Grande parte do futuro da revolução árabe em curso depende desta guerra civil. A revolução continua avançando na Tunísia e no Egito onde caíram os governos que tinham elementos de continuidade com o velho regime. No primeiro país já se conquistou a constituinte livre e soberana, enquanto que no segundo a mesma será resultado de uma eleição parlamentar. O companheiro Fred de volta desse país nos informa que lá a polícia foi praticamente destruída. A mobilização continua e os revolucionários acabam, nesses últimos dias, de assaltar as redes de polícia secreta. O governo ficou tão na defensiva que só pediu, por favor, que não façam públicos os papéis confiscados.

Entretanto, a resistência assassina de Khadaffi significa uma cerca que tenta deter a revolução regional. Não por casualidade a monarquia apoiada na casta minoritária sunita que governa o Bahrein e que está sendo rechaçada pela mobilização do povo majoritariamente xiita, acaba de pedir e conseguir o apoio militar da Arábia Saudita; esta atitude é parte deste processo regional de revolução e contra-revolução que atravessa a região.

Khadaffi conta com o apoio direto dos governos autocráticos do Marrocos e Argélia que lhe dão apoio logístico, militar e mercenário. Há provas confiáveis de que Argélia está lhe proporcionando pessoal, aviões, armas e mercenários. Conseqüentemente os revolucionários libios não só enfrentam Khadaffi, mas que ao redor do mesmo se formou uma coalizão internacional de regimes repressivos que tem seu futuro ameaçado pela Revolução Árabe em curso.

Temos posição na atual guerra civil da Líbia

A mesma posição que os socialistas e antiimperialistas conseqüentes tiveram ante os processos revolucionários da Tunísia e do Egito é a mesma que temos agora apoiando os rebeldes da Líbia. Quem se declara socialista ou inclusive aqueles que só lutam conseqüentemente pelas liberdades democráticas, não pode ter outra política que não seja apoiar e sustentar o triunfo desta rebelião popular contra o ditador que, insistimos, até ontem esteve aliado aos grandes capitais europeus e estadunidenses e muito particularmente a Itália e Inglaterra. Estamos do lado do povo e lutamos pela derrubada do ditador que o está bombardeando e atacando. 

Há toda uma corrente na América Latina de setores antiimperialistas que pensa que é preciso atuar com cautela porque o imperialismo está se aproveitando da situação, inclusive militar. Para estes setores este é o problema fundamental agora.

Nunca um processo é puro e, em geral, sempre no mundo árabe houve e há interesses das potências que tratam de se aproveitar da situação. Mas o que é preciso ver primeiro é o que está fazendo o povo com sua rebelião, não quais as formas e medidas com que as potências externas se aproveitam da guerra civil. Na Líbia, Khadaffi não está defendendo seu país, sim seu poder, suas riquezas, seus cárceres e suas câmaras de tortura, quaisquer que tenham sido suas medidas nacionalistas há 40 anos, e o está fazendo destroçando o povo.

Nós, socialistas e antiimperialistas não nos deixamos seduzir por posições do passado, mas olhamos a realidade concreta atual. Não nos guiamos pelo que diz uma ou outra cúpula de governo ou partido, mas a posição assumida pelo povo em luta. A contradição fundamental que é preciso resolver é enfrentar o inimigo do povo libio agora e esse é Khadaffi, a quem o povo enfrenta com sua rebelião. Este é o problema fundamental e não quais seriam as formas e as medidas com as quais as potências externas se aproveitam da situação de guerra civil.  

Como corretamente coloca o escritor e militante Adolfo Gilly em seu artigo no qual defende a posição assumida por Fidel Castro que, segundo ele, está sendo mal interpretado: “Não houve revolução no mundo árabe onde essas potências não tenham procedido de tal modo” e agregamos que assim o fizeram quando o Canal de Suez e em todas as listas de longas revoluções. Mas o que é preciso ver primeiro, diz Gilly “não é o que tentam e pretendem fazer seus inimigos externos, mas o que faz o povo insurreto. Quais são seus motivos e propósitos, contra quem e contra o que se rebela, quem está ao seu lado e quem está contra”. Esta luta, agregamos, é contra Khadaffi que reagiu massacrando o povo.

Se se sucedesse tal intervenção imperialista, facilitada pelo próprio Khadaffi e sua resistência em deixar o poder. Apoiar a luta do povo libio contra Khadaffi é a melhor forma de impedir a intervenção das potências imperialistas; quanto antes o derrubem, melhor será. 

Diz Gilly que é “surpreendente a quantidade de partidários do socialismo ou do nacionalismo que fecham os olhos frente a essa realidade e seguem vendo Khadaffi como um aliado, um ‘antiimperialista’, ameaçado pela intervenção dos impérios. Quem faz isso “não compreende o perigo imediato e real que é o massacre brutal promovido por Khadaffi contra seu povo. Se preocupam pela ameaça futura ainda não advinda: a intervenção imperial”. É uma posição correta, os tanques e aviões de Khadaffi não estão dirigidos a tropas invasoras, sim contra seu povo. O imperialismo está deixando Khadaffi atuar, ao ponto que somente a França reconheceu o “Conselho Nacional e Temporário Líbio para a Transição”. Se intervém enviando soldados em algum momento, não será antes de tenham deixado Khadaffi massacrar e desmantelar a força da insurreição popular. Assim atua sempre o imperialismo porque seu principal inimigo não é Khadaffi, mas a revolução árabe em curso.

O imperialismo fez a zona de exclusão no último minuto, quando já Kadaffi estava entrando em Benghazi. Ou seja quando a revolução na Líbia estava em pleno recuo, e quando suas forças estavam sendo massacradas e debilitadas pela contra-revolução de Kadaffi.

A intervenção do imperialismo teve como objetivo, uma vez detida a revolução popular, procurar um controle da situação. É uma grande ameaça. Eles estão botando o primeiro pé como uma base para avançar na região, já que para o imperialismo a situação tem piorado qualitativamente após a queda de seu principal aliado: Mubarak. Mas quem pode impedir que isto se concretize não é Kadaffi. Por isso, aqueles que colocam no centro da sua política a luta contra a invasão, deixando de lado a luta contra Kadaffi, objetivamente se volta ao lado de Kadaffi e seu exército, que tem como objetivo massacrar a resistência dos rebeldes revolucionários.

 Solidariedade por todos os meios com a revolução na Líbia

 O grande problema que tem os rebeldes é o de toda guerra revolucionária, a desvantagem militar ante as tropas de Khadaffi. Apesar disso, os rebeldes não foram derrotados e, pelo contrário continuam sua luta defendendo cidades conquistadas. Segundo informa EL País os combates continuam em Brega, cidades das tropas leais a Khadaffi haviam dito que conquistaram, mas à noite os rebeldes anunciaram havê-la recuperado. “Ainda vai de um lado a outro. Nenhuma das partes tem o controle”, declarou a Reuters o combatente rebelde Adel Ibriki em Ajdabiya  pouco depois de voltar de Brega.

A luta não tem volta atrás, como tem declarado em diversas oportunidades o exército popular rebelde; ou os rebeldes acabam com Khadaffi ou ele acaba com os rebeldes. A grande maioria dos habitantes está contra o ditador, por isso o exército de Khadaffi, que não conta com mais de cinco mil efetivos, domina em grande medida produto de seu poder de fogo aéreo. Graças a isso, Khadaffi pode avançar sobre cidades, mas uma coisa é entrar nelas, tomar prédios públicos e outra é ganhar a luta casa a casa para aplastar o povo, quando nas populações do leste o sentimento anti-Khadaffi é majoritário e quando, segundo informa El País “todo mundo tem uma arma”.

O exército de Khadaffi aparecerá nessas zonas que foram libertadas pelos rebeldes como um exército de ocupação. O jornal El País analisa também que esse exército de Khadaffi dificilmente pode cobrir com efetividade as zonas que vão conquistando e também por isso seu avanço é lento.

A história mostra que é muito difícil um triunfo do exército rebelde ou de libertação se não conta com apoio militar exterior. Assim aconteceu no Vietnã que recebeu, por exemplo, algum apoio da URSS e da China. Mas a história mostra também que um exército considerado de ocupação não consegue aplastar às massas. Assim é a história da heróica resistência palestina e a que está ocorrendo agora no Afeganistão.

O governo rebelde foi enfático que está contra uma intervenção terrestre das forças da OTAN. O que os rebeldes querem e necessitam são armas, tal como tem reclamado aos países imperialistas. A suposta neutralidade do governo brasileiro termina sendo uma política totalmente ambígua e hipócrita de deixar fazer a Khadaffi e aos países imperialistas o que bem entendam. A única alternativa correta seria apoiar aos rebeldes de todas as formas possíveis, e respondendo positivamente ao que eles solicitam. Entretanto a posição os socialistas e antiimperialistas devem defender é seguir apoiando a derrubada de Khadaffi e ao mesmo tempo combater o bombardeio imperialista.  

O companheiro Fred Henriques que voltou faz pouco tempo do Egito comentou que nas mobilizações egípcias com milhares de bandeiras presentes, 20% são dos rebeldes da Líbia. Se, como parece cada dia mais evidente, a revolução árabe se aprofunda, como está sucedendo na Tunísia e no Egito e continua batendo à porta de outros países e agora parece ter chegado até mesmo na Palestina – onde milhares de jovens organizados via Facebook se manifestaram pela unidade do Hamas e da OLP – as possibilidades da resistência de derrotar Khadaffi serão cada vez maiores. Se a revolução avança a Marrocos e Argélia que entregam abastecimento, armas e mercenários a Khadaffi, o povo desses países tomarão também a consigna de detê-los e dessa maneira afetará Khadaffi que precisa deles. Será o desenvolvimento da própria revolução árabe o que vai decidir até onde podem triunfar os revolucionários da Líbia.

 

Fora Khadaffi

Apoio à Revolução Árabe em todos os países!

Não a intervenção imperialista!

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