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Um Nobel sem escrúpulos

10/05/2011

Atilio Boron

Por Atilio A. Boron

Da truculenta operação encenada nas cercanias de Islamabad, restam múltiplas interrogações sombrias. A tendência do governo dos Estados Unidos a desinformar a opinião pública torna ainda mais suspeita toda a operação. Uma Casa Branca vítima de uma doença compulsiva de mentir (lembremos da anedota das “armas de destruição em massa” existentes no Iraque, ou o infame Informe Warren que sentenciou que não houve conspiração no assassinato de Kennedy, obra de Lee Harvey Oswald, um “lobo solitário”) nos obriga a sermos meticulosos com cada uma de suas afirmações. Era Bin Laden, ou não? Por que não pensar que a vítima poderia ser qualquer outro? Onde estão as fotos, as provas de que o assassinado era buscado? Caso se realizou algum exame de DNA, como se obteve? Onde estão os resultados? Quem foram as testemunhas? Por que não se apresentou, diante da consideração pública, os restos mortais como fizeram com o comandante Ernesto “Che” Guevara? Se, como assegura, Osama se escondia em uma mansão convertida em fortaleza, como é possível que num combate que se estendeu por 40 minutos os integrantes do comando estadunidense regressaram à sua base sem um único arranhão? Tão pouca pontaria teriam os defensores do fugitivo mais buscado do mundo, de quem se dizia que possuía uma arsenal de armas mortíferas de últimas geração? Quem estava com ele? Segundo a Casa Branca, o comando matou Bin Laden, seu filho, dois homens que o protegiam, e uma mulher que, asseguram foi usada como escudo humano por um dos terroristas. Também se disse que mais duas pessoas ficaram feridas em combate. Onde estão, que se vai fazer com elas? Serão levadas a juízo? Irão tomar declarações para esclarecer o ocorrido? Haverá uma conferência de imprensa para narrar os fatos? Pelo que parece, esta “façanha” passará pela história como uma operação mafiosa, ao estilo matança em São Valentin ordenada por Al Capone para liquidar os líderes do bando rival. 

Exterminador do Futuro ou Nobel da Paz?

Osama vivo era perigoso. Sabia (ou sabe?) demais, e é razoável supor que a última coisa que o governo estadunidense queria era levá-lo a juízo e deixá-lo falar. Neste caso, se haveria desatado um escândalo de enormes proporções ao revelar as conexões com a CIA, os armamentos e o dinheiro fornecido pela Casa Branca, as operações ilegais montadas por Washington, os obscuros negócios de sua família com o lobby petroleiro estadunidense e especialmente com a família Bush, entre outros excessos. Em suma, uma testemunha que tinham que calar, ou sim ou sim, como Muammar Kadhaffi. O problema é qie o já morto Osama se converte para os jihadistas islâmicos em um mártir da causa, e o desejo de vingança seguramente impulsionará as muitas células adormecidas da Al-Qaeda a perpetrar novas atrocidades para vingar a morte de sue líder.

Tampouco deixa de chamar a atenção quão oportuna foi a morte de Bin Laden. Quando o incêndio de campina seca do mundo árabe desestabilizou a área de crucial importância para a estratégia de dominação imperialista, a notícia do assassinato de Bin Laden reinstala a Al-Qaeda no centro do cenário. Se algo que a estas alturas é uma verdade incontornável é que estas revoltas não respondem a nenhuma motivação religiosa. Suas causas, seus sujeitos, e suas formas de luta são eminentemente seculares e em nenhuma delas – da Tunísia ao Egito, passando pela Líbia, Barhein, Iêmen, Síria, Jordânia – o protagonismo recaiu sobre a Irmandade Muçulmana ou da Al-Qaeda. O problema é o capitalismo e os devastadores efeitos das políticas neoliberais e dos regimes despóticos que este instalou nos países do Magreb e não as “heresias” ou os “infiéis” do Ocidente. Porém o imperialismo estadunidense e seus sequazes na Europa se desesperaram, desde o princípio, para fazer parecer que estas revoltas era fruto da malícia do radicalismo islâmico e da Al-Qaeda, coisa que está errada. Santiago Alba Rico observou, com razão, que em pleno auge destes protestos laicos – contra as políticas de ajuste do FMI e do Banco Mundial – um grupo fundamentalista até então desconhecido assassinou o colaborador italiano Vittorio Arrigoni, ativista do movimento de Solidariedade Internacional, em uma casa abandonada da Faixa de Gaza. Poucas semanas depois um terrorista suicida explodiu uma bomba na praça de Yemaa el Fna, um dos destinos turísticos mais notáveis do Marrocos, senão de toda a África, e matou pelo menos 14 pessoas. “Agora”, continua Alba Rico, “reaparece Bin Laden, não vivo e ameaçador, mas sim em toda glória de um mártir prorrogado, estudado, cuidadosamente encenado e um pouco inverossímil. ‘Foi feita justiça’, disse Obama, mas a justiça reclama tribunais e juízes, procedimentos sumários, uma sentença independente”. Nada disso ocorreu, nem ocorrerá. Mas o fundamentalismo islâmico, ausente como protagonista das grandes mobilizações do mundo árabe, aparece agora em primeiro plano em todos os jornais do mundo e seu líder, como um mártir do Islã assassinado a sangue frio pela soldadesca do líder Ocidental. A Casa Branca, que sabia desde meados de Fevereiro deste ano que Bin Laden se refugiava nesta fortaleza nas cercanias de Islamabad, esperou o momento oportuno para lançar seu ataque com vistas a projetar favoravelmente Barak Obama na iminente campanha eleitoral pela sucessão presidencial.

Há um detalhe em nada anedótico que torna ainda mais imoral a bravata estadunidense: poucas horas depois de ser abatido, o cadáver de Bin Laden foi lançado ao mar. A mentirosa declaração da Casa Branca disse que seus restos receberam sepultura respeitando as tradições e os ritos islâmicos, mas não é bem assim. Os ritos fúnebres do Islã estabelecem que se deve lavar o cadáver, vesti-lo com uma mortalha, proceder uma cerimônia religiosa que inclui orações e honras fúnebres para depois proceder ao enterro do defunto. Além disso, se especifica que o cadáver deve ser depositado diretamente na terra, apoiado no lado direito e com a cara dirigida para a Meca. Com que velocidade foram feitos o combate, a recuperação do cadáver, sua identificação, a obtenção do DNA, o traslado a um navio da armada dos Estados Unidos, situada a mais de 600 km do subúrbio de Islamabad, e finalmente, navegar até o local onde o cadáver foi lançado ao mar não sem antes respeitar os ritos do Islã? Na realidade, o que se fez foi abater e “desaparecer” uma pessoa, presumidamente Bin Laden, seguindo uma prática sinistra utilizada sobretudo pela ditadura genocida que assolou a Argentina entre 1976 e 1983. Ato imoral que não só ofende as crenças muçulmanas, como também a uma milenar tradição cultural do Ocidente, anterior inclusive ao cristianismo. Como atesta magistralmente Sófocles na Antígona, privar um defunto de sua sepultura acende as mais inflamadas paixões. Estas que hoje devem estar incendiando as células do fundamentalismo islâmico, desejosas de castigar os infiéis que ultrajaram o corpo e a memória de seu líder. Barak Obama acaba de dizer que depois da morte de Osama Bin Laden o mundo é um lugar mais seguro para se viver. Se equivoca de ponta a ponta. Provavelmente, sua ação não fez senão despertar um monstro que estava dormindo. O tempo dirá se isso é assim ou não, mas sobram razões para ficarmos bem preocupados.

 tradução: Joana Salém Vasconcelos (PSOL/SP)

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