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Palavras de 15 de Maio

02/06/2011

   Por Carlos Taibo, professor de Ciência Política e da Administração na Universidade Autónoma de Madrid

  22/05/2011

 

Tentei reconstruir aqui, baseando-me nos meus apontamentos, o que disse na Porta do Sol madrilena no domingo 15, ao final da multitudinária manifestação que convocou a plataforma Democracia Real Já.

  Tempo haverá para valorizar –a mim custa-me trabalho– que é o que está a acontecer nestes dias. Contento-me agora com chamar a atenção sobre uma discreta experiência pessoal que algo nos diz –acho– da inquietude com a que os meios de incomunicação do sistema assumiram a revolta de tantos jovens.

Nas jornadas sucessivas ao dia 15 recebi um monte de telefonemas desses meios de incomunicação. Algumas procediam, dito seja de passagem, de emissoras de rádio e de jornais que de maneira altiva e descortês me tinham posto na rua no seu momento. Pareceu-me evidente que os profissionais correspondentes andavam desesperados procurando alguma cara que pôr ao movimento que, fundamentalmente articulado por jovens, começava a tomar a rua. Em todos os casos -já terei tempo de mudar, caso proceda, de conduta– neguei-me a fazer declaração alguma e em todos sugeri que entrevistassem aos organizadores das manifestações e, mais ainda, aos próprios manifestantes. Numa dessas conversas o meu interlocutor fez questão da sua demanda e perguntou-me expressamente se não teria algum outro professor universitário que pudesse pôr a sua cara. Ao que parece, e aos olhos de alguns, para explicar o que está a acontecer é inevitável botar mão das sisudas explicações que proporcionamos os professores de universidade, como se o povo não soubesse exprimir-se com clareza e contundência. Ainda bem que há algum profissional que se salva. Ontem, e de novo na Porta do Sol, um jornalista disse-me que os jovens aos que entrevistara falavam muito melhor do que Tomás Gómez e –tenho o palpite– que a própria senhora De Cospedal.

Dantes de colocar o meu texto, permito-me acrescentar uma última observação: não só devemos estar sobre aviso perante o que fazem os meios –para quando uma ativa campanha de denúncia do que supõe essa genuína praga contemporânea que são os tertulianos–. Também devemos guardar as distâncias a respeito do que dizem e se aprestam a fazer muitas gentes da esquerda de sempre que, bem intencionadas, se propõem enfiar uns movimentos que em último termo não compreendem e olham com desdém. Eis, em todo o caso, as minhas palavras do dia 15.

“Quem estamos aqui somos, sem dúvida, pessoas muito diferentes. Levamos na cabeça projetos e ideais diferentes. Conseguiram, no entanto, que nos ponhamos de acordo num punhado de ideias básicas. Tento-as resumir de maneira muito rápida.

Primeira. Chamam-no democracia e não o é. As principais instituições e, com elas, os principais partidos conseguiram demonstrar a sua capacidade para funcionar à margem do ruído molesto que emite a população. Os dois partidos mais importantes, em singular, cenificam desde tempo atrás uma confrontação aparentemente severa que esconde uma fundamental comunidade de ideias. Um e outro mantêm nas suas fileiras, falando nisso, pessoas de mais que duvidosa moralidade. Não é difícil adivinhar o que há por trás: nos factos são formidáveis corporações económico-financeiras as que ditam a maioria das regras do jogo.

Segunda. Somos vítimas com frequência de grandes cifras que se nos impõem. Em maio de 2010, por propor um exemplo, a União Européia exigiu do Governo espanhol que reduzisse em 15.000 milhões de euros a despesa pública. Ninguém sabe a ciência verdadeira que são 15.000 milhões de euros.

 Para compreendê-lo não está a mais que assumamos uma rápida comparação com outras cifras. Nuns anos atrás esse Governo espanhol que acabo de mencionar destinou em início 9.000 milhões de euros ao saneamento de uma única caixa de poupanças, a de Castilla-La Mancha, que estava à beira da falência; estou a falar de uma cifra que se achegava às duas terceiras partes da exigida em cortes pela União Europeia. Durante dois anos fiscais consecutivos, esse mesmo Governo obsequiou com 400 euros todos os que fazemos uma declaração da renda. Todos, dito seja de passagem, por igual: o mesmo recebeu o senhor Botim que o cidadão mais pobre. Segundo uma estimativa, esse presente levou-se, em cada um desses anos, 10.000 milhões de euros. Estou a falar do mesmo Governo, que se autotitula socialista, que não duvidou em suprimir um imposto, o do património, que por lógica grava antes de mais aos ricos, reduzindo sensivelmente a arrecadação, enquanto incrementava em troca outro, o IVA, que castiga os pobres. O mesmo Governo, em fim, que quase não faz nada para lutar contra a fraude fiscal e que mantém a legislação mais laxa da União Européia no que faz a evasão de capitais e paraísos fiscais.

 Terceira. Se há um deus que adoram políticos, economistas e muitos sindicalistas, esse deus é o da concorrência. Qualquer pessoa com dois dedos de testa sabe, porém, em que se traduziram, para a maioria dos que estão aqui, os formidáveis ganhos obtidos nos últimos anos em matéria de concorrência: salários cada vez mais baixos, jornadas laborais cada vez mais prolongadas, direitos sociais que recuam, precariedade por todas as partes.

Não é difícil identificar as vítimas de tanta miséria. A primeira achegam-na os jovens, que engrossão em massa o nosso exército de reserva de desempregados. Se não tivesse muitas tragédias por trás, teria a sua graça glosar essa deriva terminológica que faz meia dúzia de anos nos convidava a falar de “mileuristas” para retratar uma delicada situação, hoje nos convida ao fazer de “quinhentoseuristas” e passado amanhã, as coisas como vão, obrigar-nos-á a nos referir aos “trezentoseuristas”. A segunda vítima são as mulheres, de sempre pior pagas e condenadas a ocupar os degraus inferiores da pirâmide produtiva, para além de se verem obrigadas a carregar com o grosso do trabalho doméstico. Uma terceira vítima são os esquecidos de sempre, os idosos, ignorados designadamente por esses dois maravilhosos sindicatos, Comissões e UGT, sempre dispostos a assinarem o inassinável. Não quero esquecer, em quarto e último lugar, aos nossos amigos imigrantes, convertidos, segundo as conjunturas, em mercadoria de tira e põe. Estou a falar, afinal de contas, de uma escueta minoria da população: jovens, mulheres, idosos e imigrantes.

Quarta. Não quero deixar no esquecimento os direitos das gerações futuras e, com eles, os das demais espécies que nos acompanham no planeta Terra. Digo-o porque neste país no que estamos há muito tempo que confundimos crescimento e consumo, por um lado, com felicidade e bem-estar, pelo outro. Falo do mesmo país que permitiu orgulhoso que a sua pegada ecológica se acrescentasse espetacularmente, com efeito principal na rutura de precários equilíbrios do meio ambiente. Eis, para testemunhá-lo, a idolatria do automóvel e da sua cultura, esses maravilhosos comboios de alta velocidade que permitem que os ricos se movam com rapidez enquanto se deterioram as possibilidades ao alcance das classes populares, os castigos, talvez irreversíveis, que padeceram a nossa costa ou, para o deixar aí, o dramático desaparecimento da vida rural. Nada retrata melhor onde estamos que o facto de que Espanha esteja na cauda da União Européia na luta contra a mudança climática, com um Governo que alenta a inapresentável compra de quotas de contaminação em países pobres que não estão em condições de esgotar as suas.

Quinta. Entre as reivindicações que propõe a plataforma que promove estas manifestações e concentrações há uma expressa relativa à urgência de reduzir a despesa militar. Parece-me tanto mais pertinente quanto que nos últimos anos tivemos a oportunidade de comprovar como nossos diferentes dirigentes reduziam de maneira muito sensível a ajuda ao desenvolvimento. Nunca vamos sublinhá-lo de maneira suficiente: o momento mais tétrico da nossa crise desenha um cenário claramente preferível ao momento mais airoso da situação da maioria dos países do Sul.

Volto, com tudo, ao da despesa militar. Esta última, visivelmente ocultada depois de numerosas verbas, responde a dois grandes objetivos. O primeiro não é outro que manter Espanha no núcleo dos países poderosos, com os deveres consiguientes em matéria de apoio a essas genuínas guerras de pilhagem global que lideram os Estados Unidos. O segundo vincula-se com o desígnio de preservar um apoio franco ao que fazem tantas empresas espanholas no exterior. Alguém teve notícia de que algum porta-voz do Partido Socialista ou do Partido Popular se tenha atrevido a criticar, sequer só seja mornamente, as violações de direitos humanos básicos de que são responsáveis empresas espanholas na Colômbia como no Equador, no Peru como na Bolívia, na Argentina como no Brasil?

Acabo. Gostaria nestas horas de ter uma lembrança para alguém que nos deixou em Madrid na terça-feira passada. Falo de Ramón Fernández Durán, que alumiou o nosso conhecimento relativo às misérias do capitalismo global e nos alertou perante o que nos espera da mão dessa genuína idade das trevas na qual, se não o remediamos, nos adentramos a passo forçado. Não se me ocorre melhor maneira de fazê-lo que a que me convida a resgatar uma frase que repetiu muitas vezes o meu amigo José Luis Sampedro, de quem escutaremos, por verdadeiro, um saúdo dentro de uns minutos. A frase em questão, que acho reflete bem às claras nossa intenção desta tarde, pronunciou-a Martin Luther King, o gestor principal do movimento de direitos civis nos Estados Unidos de cinquenta anos atrás. Diz assim: ‘Quando refletamos sobre no nosso século, o que vai parecer-nos mais grave não será a ruindade dos malvados, senão o escandaloso silêncio das boas pessoas’. Muito obrigado por ter-me escutado”.

Em Diário Liberdade

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