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Quando a austeridade fracassa

02/06/2011

Por Paul Krugman, The New York Times – O Estado de S.Paulo

Se os bancos gregos entrarem em colapso, isso obrigará o país a sair da zona do euro, o que daria início à queda dos dominós financeiros em grande parte da Europa

 

Muitas vezes eu me queixo, e com razão, sobre o estado em que encontra a discussão da economia nos EUA. E a irresponsabilidade de alguns políticos – como esses republicanos que afirmam que um calote da dívida americana não seria um grande problema – é assustadora.

 Mas pelo menos entre os membros do “grupo da dor, defensor do rigor “, para quem elevar as taxas de juro e cortar as despesas do governo diante do desemprego em massa de alguma maneira deixarão as coisas melhores, não piores, estão sendo obrigados a um certo recuo por parte do Federal Reserve e o governo Obama.

Na Europa, ao contrário, esse “grupo da dor” está no comando há mais de um ano, e insiste que uma moeda sólida e orçamentos equilibrados são a resposta para todos os problemas. Uma insistência que tem por base fantasias econômicas, em particular a crença na fada da confiança, ou seja, a crença de que um corte de gastos criará de fato postos de trabalho, porque a austeridade fiscal reforçará a confiança do setor privado.

Infelizmente a fada da confiança continua se recusando em se mostrar.

E uma disputa sobre como lidar com a inconveniente realidade ameaça fazer da Europa o ponto de ignição de uma nova crise financeira.

Depois da criação do euro, em 1999, nações europeias que antes eram consideradas de risco e que, por isso, só podiam tomar emprestado até um determinado limite, começaram a experienciar enormes entradas de capital. Afinal, os investidores devem ter pensado, Grécia, Portugal, Irlanda, Espanha, eram membros de uma unidade monetária europeia, então o que poderia dar errado? Hoje, a resposta a essa pergunta está penosamente aparente. O governo da Grécia, não conseguindo levantar empréstimos a taxas ligeiramente mais altas do que as obtidas pela Alemanha, endividou-se demasiadamente. Os governos da Irlanda e Espanha não chegaram a tanto (Portugal está numa posição intermediária) – mas seus bancos estão bastante endividados já que o boom de 1999-2007 deixou os preços e custos nos países devedores bastante desalinhados com os dos seus vizinhos.

 

Merkel e Sarkozy: barco furado

O que fazer? Os líderes europeus ofereceram empréstimos de emergência para as nações em crise, mas em troca de promessas de que seriam implementados programas de austeridade cruéis, que consistiam principalmente de enormes cortes de despesas. As objeções de que tais programas seriam contraproducentes, – não só infligiriam um sofrimento direto, mas provocariam uma piora da crise econômica, reduziriam receitas – foram desconsideradas. A austeridade na verdade provocaria uma expansão, pois melhoraria a confiança.

Ninguém acreditou na doutrina da austeridade expansionista com mais confiança do que Jean-Claude Trichet, presidente do BCE. Sob a sua direção, o banco passou a pregar a austeridade como o elixir econômico que deveria ser imposto imediatamente e em todas as partes, incluindo países como Grã-Bretanha e Estados Unidos, que ainda contabilizam um alto índice de desemprego e não estão enfrentando nenhuma pressão dos mercados financeiros.

Mas, como disse, a fada da confiança não se manifestou. Os países endividados da Europa estão, como era de esperar, sofrendo um novo declínio econômico graças aos programas de austeridade implementados, e a confiança está naufragando, em vez de aumentar. É evidente, agora que Grécia, Irlanda e Portugal e não podem e não se dispõem a resgatar suas dívidas, embora a Espanha possa conseguir enfrentar a situação.

Realisticamente, então, a Europa precisa se preparar para uma redução da dívida, que envolveria uma combinação de ajuda das economias mais saudáveis e a imposição aos credores privados de “reduções parciais” do seu crédito, aceitando menos do que emprestaram. Mas parece que está faltando um pouco de realismo.

De um lado, a Alemanha adotou uma posição dura contra qualquer coisa que se assemelhe a uma ajuda para seus vizinhos em dificuldades, mesmo que uma razão importante para um programa de socorro seja tentar proteger os bancos germânicos de prejuízos.

Já o BCE age como se determinado a provocar uma crise financeira. Começou a elevar as taxas de juro, não obstante o terrível estado de muitas economias europeias. E executivos do banco vêm advertindo contra qualquer forma de alívio da dívida – na verdade, na semana passada, um membro do do BCE sugeriu que mesmo uma reestruturação moderada dos títulos gregos levaria o BCE a deixar de aceitar esses papéis como garantias de empréstimos a bancos gregos. O que equivale a uma declaração de que, se a Grécia buscar um alívio da sua dívida, o BCE retirará toda a ajuda para os bancos gregos, que dependem de maneira crucial desses empréstimos.

Se os bancos gregos entrarem em colapso, isso obrigará a país a sair da zona do euro – e é muito fácil ver como isso pode dar início à queda dos dominós financeiros em grande parte da Europa.

Então, o que o BCE anda pensando? O meu palpite é que o banco não está disposto a encarar o fracasso das suas fantasias. E se isso soa algo incrivelmente insensato, bem, quem disse algum dia que a sensatez rege o mundo? / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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