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Islândia: o povo puniu a festança dos banqueiros

05/06/2011

Extratos de artigos do “El País”

A Islândia foi saqueada por não mais de 20 ou 30 indivíduos. Uma dúzia de banqueiros, alguns poucos empresários e um punhado de políticos formaram um grupo selvagem que levou a país inteiro à ruína: 10 dos 63 parlamentares islandeses, incluídos dois líderes do partido que governou quase ininterruptamente desde 1944, tinham empréstimos pessoais concedidos por um valor de quase 10 milhões de euros por cabeça. Ainda estão por comprovar que essa prática seja crime (ao que tudo indica, parte desse dinheiro era usado para comprar ações dos próprios bancos para inflar as cotações). Mas de qualquer maneira, sendo crime ou não, é um grande escândalo.

Mas a festa desmoronou: os ativos dos bancos chegaram a um valor 12 vezes maior que o PIB do pais. Índice tão alto de multiplicação havia sido observado apenas na Irlanda – outro exemplo de modelo liberal. Da noite para o dia, com o anúncio da falência do Lehman Brothers e a quebra financeira mundial, o sistema desabou. Foi “o choque mais brutal e fulminante da crise internacional”, assegura Jon Danielsson, da London School of Economics.

A inflação disparou, o desemprego cresceu a toda velocidade, o PIB caiu 15%, os bancos perderam 100 bilhões de dólares. E de quem foi a culpa? Dos bancos e dos banqueiros, de sua desumana ganância. Os bancos são os vilões e têm toda a culpa da catástrofe que atingiu a Islândia. Em todo o caso, a culpa é também dos políticos que permitiram que tudo isso acontecesse.

Mas há algo que salva os islandeses e, de alguma maneira, lhes redime de parte desses pecados. Stephane Hessel conta que, na Europa e nos EUA, os financistas, culpados indiscutíveis da crise, salvaram-se e prosseguem sua vida como sempre. Em troca, suas vítimas não recuperaram o nível de ganhos, nem seus empregos. “O poder do dinheiro nunca tinha sido tão grande, insolente, egoísta com todos”, acusa. Entretanto, houve um país onde o povo não deixou que isso ocorresse “No país do ártico, o povo indignado obrigou os banqueiros a assumirem a responsabilidade.”Resolveram deixar quebrar os bancos e dizer aos credores que não eles não vão lhes cobrar tudo o que lhes deviam. Isso ajudou ajudou a mitigar algumas das consequências das loucuras de seus banqueiros”

 A crise deixou uma cicatriz enorme que segue bem visível. Esse processo elevou a dívida pública a mais de 100% do PIB e para controlar o déficit fiscal, tampouco os islandeses se livraram da onda de austeridade que percorre a Europa do Estreito de Gibraltar até a costa da Groenlândia: mais impostos e menos gasto público. Além disso, Islândia teve que pedir um empréstimo ao FMI, que obrigou a aplicar sua receita habitual: elevar os impostos e cortar gastos públicos. Com isso, houve corte de salários e benefícios sociais. Em alguns lugares, o governo chega a fechar escolas. Houve o enxugamento, enfim, do Estado de Bem-Estar.

 

Em referendo, Islândia rechaça pagar pelos erros de seus bancos

O NÃO vence no referendo que pretendia aprovar a indenização de 4 bilhões de euros que exigem Reino Unido e Holanda pela quebra de uma entidade bancária. O que você faria se um dos grandes bancos em seu país quebrasse e o Governo britânico exigisse um pagamento de 50.000 euros por família para saldar essa dívida? A Islândia, que já negou-se em uma ocasião a pagar essa fatura, enfrentou, no dia 09 de abril desse ano, um segundo referendum sobre “devolver” ou não os 4 bilhões de euros a Reino Unido e Holanda pela bancarrota de uma de suas entidades financeiras. E tornaram a dizer não. Segundo os resultados parciais, com 70% das cédulas apuradas,  57,7% dos votantes rechaçaram fazê-lo, frente aos 42,3% que o aprovaram. O resultado pode ser visto como um triunfo da denominada “Revolução do Panelaço”. 

O referendo foi convocado há dois meses pelo presidente islandês, Oláfur Ragnar Grímsson, que negou- se a assinar uma lei do Parlamento que estipulava as condições do acordo: um pagamento com interesses de 3% a 37 anos. Grímsson já o fez em outro momento: em dezembro de 2009 já forçou uma consulta similar, quando, contra todo prognóstico, se negou a assinar uma lei que obrigava a pagar com interesses de 5,5% em 15 anos. O NÃO ganhou, então, de forma esmagadora. “As antigas condições de pagamento eram muito injustas: as novas são melhores, mas se os islandeses vão ter que carregar uma dívida de seus bancos, devem ter direito de decidir. A Islândia é uma democracia, não um sistema financeiro”, declarou Grímsson.

O Governo, em troca, defendia o SIM no referendo, defendendo que os ativos do banco quebrado, quando se liquidarem, permitirão pagar a maior parte da dívida. Os partidários do NÃO argumentavam que o povo não deveria pagar pelas loucuras de seus bancos e que a legislação internacional -cheia de sombras- não obriga nenhum país a assumir dívidas astronômicas que ultrapassam  importância acumulada nos recursos de garantia.

O trunfo do NÃO deixa em uma difícil posição o Governo de coalizão entre social-democratas e  os “rojiverdes”, e complica o acesso da Islândia à União Europeia e aos créditos com o FMI e outros países nórdicos. Os islandeses sabem disso, e mesmo assim votaram NÃO. “Temos a opção de acabar com este desafortunado assunto com dignidade, ou  embarcar novamente num período de incertezas”, alertou à época o ministro das Finanças, Steingrimur Sigfusson. “De acordo: mas a crise já está sendo o suficientemente dura. Não quero pagar mais”, respondeu o diretor de cinema Arni Sveinsson.

Decepção Britânica

A reação do Reino Unido foi a esperada. O secretário-chefe do Tesouro britânico, Danny Alexander, expressou sua decepção ante a negativa dos islandeses em pagar pelo colapso dos bancos “É claro que o rechaço declarado pelo povo islandês ao que era um acordo negociado foi decepcionante. Mas é evidente que respeitamos sua decisão, mas agora vamos falar com nossos sócios internacionais e parece que esse processo irá terminar nos tribunais”.

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