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Os novos passos da primavera egípcia

15/06/2011
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Por Frederico Henriques, sociólogo e militante do PSOL/SP, esteve 12 dias no Egito durante as manifestações de março de 2011.

Apesar da insistência da mídia em tirar de foco os avanços das revoluções democráticas no Oriente Médio e os seus reflexos na Europa, levantes e contradições se acentuam no último período. Estes fatos podem ser vistos no aprofundamento da revolução democrática tunisiana, com a assembléia constituinte, na juventude e nos trabalhadores da Síria, que continuam a onda de protestos por todo o país, e mesmo no Egito, que começa a dar uma nova dinâmica para a geopolítica regional.

Embora no Egito o referendo constitucional de março tenha consolidado uma grande vitória de setores reformistas sobre os setores radicalizados no processo, fazendo com que a revolução caminhe de forma mais lenta que o caso tunisiano, a Primavera Egípcia começa a dar seus primeiros grandes passos após a queda de Mubarak.

Na geopolítica internacional, o Egito passa ater uma posição mais independente do imperialismo europeu e norte americano, que pode ser vista na abertura do Canal de Suez para navios persas, especialmente iranianos. Porém, o passo mais importante foi na mediação Palestina, pois após a revolução de 25 de Janeiro vários setores palestinos passam a ver o Egito como um mediador importante de sua causa. Essa movimentação faz com que o grupo dirigente da Faixa de Gaza, Hamas e o principal partido da Cisjordânia, Fatah, iniciem um processo de acordo, especialmente com o aumento das manifestações massivas em suas regiões pedindo a união destas duas facções. A assinatura de reaproximação destes dois grupos foi feita no Cairo, demonstrando a importância da independência egípcia para a vitória da causa Palestina. A solidariedade pela libertação deste povo foi gritada por centenas de milhares de egípcios no dia 15 de Maio.

 Internamente no país as contradições e embates também prosseguem. Semanalmente a Praça Tahrir continua a ser ocupada por manifestantes, sempre com a pauta da punição a Mubarak e seus comparsas. A dificuldade em avançar na pauta política dificultou a unificação dos grupos de juventude, especialmente porque a pauta das eleições do segundo semestre passaram a tomar conta da pauta política. Enquanto os setores conservadores, ligados a antigos aliados e partidos de Mubarak, articulam a candidatura de Amr Moussa à presidência do Egito, ElBaradei se postula como porta voz da revolução e se aproxima dos principais grupos de juventude.

O grande avanço no processo revolucionário está acontecendo no seio da classe trabalhadora. Apesar dela não ter anunciado a primavera, é exatamente este setor que se tornou o mais dinâmico e mantém paralisações e greves de maneira constante desde o início do processo, além de reivindicações por melhores condições de trabalho e o aumento do salário mínimo de 70 para 200 dólares, como exemplos de algumas pautas mais concretas. Porém, foi no 1º de Maio deste ano, com dezenas de milhares de jovens e trabalhadores nas ruas, que se pode dar um salto qualitativo com a criação de uma Central Sindical Independente, algo nunca alcançado pelos trabalhadores deste país.

Apesar da falta de organizações políticas que tenham capacidade de acelerar este processo, a revolução democrática não pára. Dificuldades e superações estão no centro do país mais populoso do mundo árabe.

 

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